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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Morte por Davos



26 de fevereiro de 2013 | 15h11
Paul Krugman


É assim que o euro termina: não com os bancos, mas com bunga-bunga.
   
OK, o euro não está condenado – ainda. Mas a eleição italiana sinaliza que os eurocratas, que jamais perdem uma oportunidade de perder uma oportunidade, estão chegando muito perto da borda.
   
O fato fundamental é que uma política de austeridade para todos – austeridade incrivelmente dura em nações devedoras, mas um pouco de austeridade também no núcleo europeu, e nenhum indício de uma política expansiva em lugar algum – é um completo fracasso. Nenhuma nação sob a austeridade imposta por Bruxelas/Berlim mostrou um indício sequer de recuperação econômica; o desemprego alcançou níveis de destruir sociedades.
   
Esse fracasso chegou perto de destruir o euro por duas vezes, no fim de 2011 e, de novo, em meados do ano passado, quando nações devedoras ameaçaram entrar num parafuso de quedas de preços de bônus e falências bancárias. Em cada ocasião dessas, Mario Draghi e o Banco Central Europeu (BCE) entraram em cena para conter os danos, primeiro emprestando aos bancos que estavam comprando dívida soberana (Operação de Refinanciamento de Longo Prazo, ou LTRO na sigla em inglês), depois anunciando a disposição de comprar dívida soberana diretamente (Transações Monetárias Diretas, ou OMT); mas em vez de tomar a experiência quase mortal como uma advertência, os austeros da Europa tomaram a tranquilização dos mercados arquitetada pelo BCE como um sinal de que a austeridade estava funcionando.
   
Bem, os sofridos eleitores da Europa não concordaram.
   
Como eles puderam não perceber o que estava a caminho? Bem, na Europa ainda mais que nos Estados Unidos, as Pessoas Muito Sérias (PMS) vivem numa bolha de consideração pela própria seriedade, e imaginam que o público em geral seguirá o seu comando – vamos minha gente, é a única coisa responsável a fazer. Wolfgang Münchau fez uma ótima introdução em sua coluna hoje (terça-feira), que capta a essência:
     
“Houve um momento simbólico nas eleições italianas quando eu soube que o jogo tinha terminado para Mario Monti, o primeiro-ministro derrotado. Foi quando no meio da campanha – no meio de uma insurgência contra o establishment – ele foi a Davos para estar com seus amigos da política e das finanças internacionais. Sei que sua visita à elite que se reunia nas montanhas suíças não foi explorada na campanha, mas ela sinalizou para mim uma falta quase cômica de realismo político”
   
O que as PMS não percebem é que a percepção pública de seu direito de liderar depende de elas alcançarem ao menos alguns resultados reais. O que elas realmente produziram, contudo, foram anos de um sofrimento incrível acompanhado por promessas repetidas de que a recuperação estava muito próxima – e depois se admiram de que muitos eleitores já não confiam no seu julgamento, e se voltam para algum outro, qualquer outro, que oferece uma alternativa.
    
Gostaria de acreditar que a eleição italiana serviria como um despertador – uma razão para, por exemplo, dar ao BCE sinal verde para mais expansão, uma razão para a Alemanha executar algum estímulo e para a França recuar do seu desnecessário aperto de cinto. Minha suspeita, porém, é que elas simplesmente farão mais palestras aos italianos e a todos os demais sobre como elas estão se esforçando.
   
E pode haver figuras piores que Beppe Grillo à espreita no futuro da Europa.

Fonte: http://blogs.estadao.com.br/paul-krugman/2013/02/26/morte-por-davos/
Tradução: Celso Paciornik

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

ARTIGO - o Brasil e a crise de 2008-2009


25/11/2012 - 03h35

Diagnosticar e medicar


HENRIQUE MEIRELLES


No Brasil, como dizem, até o passado é incerto. O registro histórico e analítico dos fenômenos econômicos é insuficiente, dando margem a interpretações baseadas em convicções pessoais, ideológicas e oportunistas.
Um debate pautado por conclusões pessoais tende ao vazio. O grande custo é não aprendermos com nossos erros ou, melhor ainda, nossos acertos. Na crise de 2008-09, a economia brasileira se recuperou rapidamente após medidas de diversos órgãos de governo. Por isso é importante entendermos o que foi feito.
A crise pegou o Brasil via colapso das linhas de crédito internacionais, já que 20% do crédito vinham do exterior. Isto fez com que os bancos redirecionassem créditos em reais para grandes clientes exportadores, reduzindo as linhas aos demais clientes. Resultado: queda de 20% do crédito total.
Como grandes empresas passaram a tomar recursos em reais para pagar empréstimos externos, a demanda por dólares causou depreciação cambial acentuada. O que gerou outra crise: exportadores tinham efetuado contratos nos mercados derivativos procurando se proteger de que-das futuras do dólar, acreditando que no Brasil o dólar não subiria por causa dos juros altos. Quando o dólar subiu rapidamente, os prejuízos foram monumentais.
Nessa escassez de recursos, um cidadão que queria comprar carro não tinha crédito. Ressabiado, ele suspendia a compra de outros bens. Resultado: o PIB caiu a uma taxa anualizada de 13% no último trimestre de 2008.
As ações do BC foram fortes e concentradas: 1) Emprestou reservas para os bancos repassarem a exportadores e importadores com obrigações em moeda estrangeira, em volume e rapidez suficientes para resolver o problema da liquidez em dólar; 2) Vendeu reservas no mercado "spot" para conter fuga de capitais; 3) Redirecionou a grande disponibilidade de depósitos compulsórios a setores danificados; 4) Atuou no mercado de derivativos de forma agressiva.
A concessão de crédito, essência da crise, voltou rapidamente. O governo cortou impostos de bens como automóveis e, quando o cidadão ia à revenda, já tinha crédito, o que acelerou a volta da confiança do consumidor. Outras medidas de crédito complementaram o processo.
A grande lição é que a crise tem de ser enfrentada com diagnóstico e remédio precisos para doenças que, de fato, existem no momento, e não com o remédio de preferência de cada um.
O grande desafio do Brasil é o aumento da produtividade num mundo ultracompetitivo, onde países estimulam exportações e restringem importações. Esse é o canal de transmissão da crise hoje e no qual devemos concentrar esforços.
HENRIQUE MEIRELLES escreve aos domingos nesta coluna.
FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/henriquemeirelles/1190802-diagnosticar-e-medicar.shtml

sábado, 23 de julho de 2011

O Calote dos Estados Unidos

22/07/2011 - 12h09

Senado rejeita plano anticalote aprovado por deputados nos EUA


O Senado americano rejeitou nesta sexta-feira, por 51 votos a 46, a proposta de cortes no Orçamento e elevação do teto da dívida aprovada dias antes pela Câmara dos Deputados.

A medida era esperada, já que o Senado é controlado pelos democratas, que haviam alertado que derrubariam a proposta republicana se passasse pela Câmara dos Deputados, controlada pela oposição republicana.
O plano previa cortes severos em gastos sociais e limites às despesas do governo, além de obstáculos ao aumento de impostos -ponto de confronto com os democratas, que querem somar cortes e arrecadação.
Batizado de "corte, restrinja e equilibre", o projeto pedia ainda que o governo limite seu gasto a menos de 20% do PIB, hoje em quase US$ 15 trilhões, e condicionava aos cortes o "sim" para elevar o teto da dívida em US$ 2,4 trilhões.
A dívida americana, hoje avaliada em ao menos US$ 14,3 trilhões, atingirá seu teto em 2 de agosto. Sem um acordo bipartidário, o governo não terá mais dinheiro a gastar e pode declarar um calote em credores externos e internos.
Os líderes democratas e republicanos têm tentado assegurar aos mercados que um default será evitado, mas estão longe de concordar sobre como fazê-lo.
Os republicanos querem que qualquer aumento no limite de dívida inclua profundos cortes de gastos, mas se opõem a qualquer elevação nas receitas. Os democratas querem mais impostos para os norte-americanos mais riscos como parte de um pacote de redução do déficit, opção descartada pela maioria dos republicanos.
Com o prazo para o calote se aproximando, Obama aposta em um segundo plano, da chamada Gangue dos Seis --três senadores republicanos, três democratas.
Essa proposta permite ao governo esticar sua dívida, mas o obriga a eliminar do Orçamento US$ 3,7 trilhões (25% do PIB) em dez anos. De cada US$ 3 economizados, US$ 2 viriam de cortes e US$ 1 da arrecadação. Analistas conservadores e parte dos republicanos exortam a Câmara a aceitar essa conta.
Para eles, seria uma vitória dos que querem enxugar programas federais como a seguridade social e o Medicare (assistência pública à saúde), em troca de um preço modesto: o fim da isenção tributária promovida por George W. Bush.
Mas a queda de braço reflete como políticos dos dois lados veem no debate uma faixa de largada para as eleições gerais do ano que vem.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Crise nos EUA

03/11/2010 - 16h20

EUA comprarão US$ 600 bi em bônus para impulsionar economia

Da Redação, em São Paulo

  • Operador de mercado trabalha na Bolsa de Nova York; ao fundo, monitor anuncia a decisão do Fed (o BC norte-americano) em manter a taxa básica de juros dos EUA entre 0% e 0,25%
    Operador de mercado trabalha na Bolsa de Nova York; ao fundo, monitor anuncia a decisão do Fed (o BC norte-americano) em manter a taxa básica de juros dos EUA entre 0% e 0,25%

O Federal Reserve, o banco central-americano, anunciou na tarde desta quarta-feira que o governo comprará US$ 600 bilhões em títulos do Tesouro até o segundo trimestre de 2011 -- serão cerca de US$ 75 bilhões por mês.
O Fed também anunciou que manterá os juros do país entre 0% e 0,25% ao ano e repetiu a promessa de manter a taxa de juros excepcionalmente baixa por um período prolongado.
Apesar de dados recentes da economia dos EUA terem surpreendido positivamente o mercado, já esperava-se que o banco central norte-americano anunciasse nesta quarta-feira a compra de pelo menos US$ 500 bilhões em ativos nos próximos meses.
O objetivo do Fed ao comprar títulos do Tesouro é deixar o sistema financeiro do país com mais dinheiro em caixa e, assim, estimulá-lo a conceder crédito mais barato ao consumidor, que dessa forma estaria mais disposto a gastar.
Com essa estratégia, o governo espera promover o reaquecimento da economia americana, que enfrenta uma das mais altas taxas de desemprego da sua história, de 9,6%.
A medida, porém, é controversa. Para muitos economistas, e alguns membros do próprio Fed, a compra de títulos pode ter um efeito mínimo e reduzir ainda mais a inflação, que está num dos menores patamares desde os anos 1960.
“Quando se tem taxas de juros tão baixas quanto estão hoje, elas não podem diminuir muito, por isso eu não espero resultados avassaladores nessa ação”, disse Paul Volcker, ex-chairman do Fed.
O Fed cortou as taxas de juros para quase zero em dezembro de 2008 e já comprou cerca de US$ 1,7 trilhão em dívida do governo dos EUA e bônus atrelados a hipotecas.

Dólar e bônus americanos

"A expectativa de cerca de US$ 100 bilhões a US$ 200 bilhões (para a compra mensal de bônus do governo) já está embutida na cotação do dólar", escreveram Camilla Sutton e Sacha Tihanyi, estrategistas de câmbio da instituição canadense Scotia Capital, que viam o risco de uma breve alta do dólar caso o anúncio não correspondesse às expectativas.
Na semana passada, Bill Gross, gestor do maior fundo de bônus do mundo na Pacific Investment Management Co. (Pimco), afirmou por meio de um relatório que a retomada das compras de ativos pelo Federal Reserve significa o fim do período de 30 anos de mercado em alta para os bônus.
"O anúncio do Fed provavelmente vai significar o fim do grande período de mercado em alta para bônus e a necessidade para gestores de bônus – e, sim, para gestores de ações-- se ajustarem a um novo ambiente", escreveu.
Para Gross, o programa de compra de bônus do banco central norte-americano "é, de fato, inflacionário e um pouco de esquema Ponzi (pirâmide)". O programa "aumenta os preços dos bônus para criar a ilusão de altos retornos anuais, mas no final acaba em nada e os preços não podem mais subir", acrescentou.

(Com informações do Valor e da Reuters)

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Ainda os efeitos da crise financeira mundial: desvalorização da moeda americana

PAÍSES FORÇAM VALORIZAÇÃO (11/10/2010)

Não há trégua na guerra cambial



11/10/2010 
Governo brasileiro está tomando providências, adquirindo o excesso de liquidez externo através da compra de divisas

Washington. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, poderá reclamar da guerra cambial por longo tempo. Não há sinal de trégua, depois de muito falatório na assembleia do Fundo Monetário Internacional (FMI). O governo chinês continua rejeitando as pressões para deixar o yuan valorizar-se. O Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, continuará emitindo dinheiro. Mais dólares vão fluir para o Brasil e outros mercados emergentes, forçando a valorização de suas moedas.

Esses países poderão adotar controles unilaterais, como impostos sobre o capital estrangeiro, mas nenhuma barreira será eficiente por muito tempo. A experiência é clara quanto a isso. O tema será discutido mais uma vez na reunião de cúpula do Grupo dos 20 (G-20), em novembro, e dificilmente haverá resultado prático. Nenhum país pode resolver sozinho o problema do câmbio. Só pode haver solução global, repetiram durante uma semana o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, e uma porção de técnicos e ministros, incluído Mantega. Mas isso foi tudo. Não houve acordo sobre como agir ou dividir o peso do ajuste. O Comitê Monetário e Financeiro, principal órgão político do Fundo, limitou-se a dividir a responsabilidade entre países deficitários e superavitários.

Déficit é risco

O presidente do BC, Henrique Meirelles, disse que o governo está atento ao aumento do déficit em conta corrente em diversos países ao redor do globo, o que, segundo ele, representa um risco global. "A evolução do déficit (global) é algo que estamos observando com toda a atenção", afirmou.

Atuação

"(O governo) está trabalhando para manter a sua economia equilibrada"
Henrique Meirelles
Presidente do Banco Central

EFEITOS NO MUNDO

Crise só deve ser superada em 5 anos

Washington. O mundo deve demorar de três a cinco anos para superar completamente a crise econômica iniciada em 2008, com a quebra de instituições americanas de crédito imobiliário. A estimativa foi apresentada ontem por Mohamed El-Erian, diretor-executivo da administradora de fundos de investimento Pimco, em uma palestra paralela à programação da Assembleia Geral do FMI e do Banco Mundial. "O mundo venceu a guerra, mas não alcançou a paz", afirmou El-Erian.

Ao avaliar a situação atual, El-Eiran esquivou-se de mencionar diretamente os dilemas mundiais acentuados, em certa medida, pelo seu próprio ramo de negócio. Esse é o caso da reorientação dos fluxos de capitais das economias centrais para alguns emergentes, como o Brasil e a China. O efeito menos benéfico desse movimento de capital se dá na valorização excessiva das moedas, contornado por meio de intervenções fiscais e, sobretudo, monetárias. Trata-se da raiz da "guerra cambial", termo cunhado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. El-Erian preferiu se restringir ao risco da "inércia" dos países desenvolvidos e dos resultados desapontadores de suas políticas de recuperação para a economia mundial. Em seu ponto de vista, trata-se da ameaça mais significativa do momento, provocada "pelo não reconhecimento de problemas persistentes".

quarta-feira, 7 de julho de 2010

ARTIGO - A desigualdade não apenas diminui o crescimento econômico como também esgarça o tecido social de nossa sociedade



Pilhagem injusta
Não se trata de uma mera coincidência. Quando a maior parte dos ganhos do crescimento econômico fica com uma pequena fatia de cidadãos da elite, o resto não não tem o poder de compra para adquirir o que a economia é capaz de produzir. O salário médio dos EUA, ajustado à inflação, quase não mudou por décadas. Entre 2000 e 2007 ele na verdade despencou. Nessas circunstâncias, a única maneira da classe média manter seu poder de compra foi se endividando. A razão estrutural da Grande Depressão que ainda assombra os EUA é a explosão da desigualdade social. O artigo é de Robert Reich.
O banditismo de Wall Street é a causa próxima da Grande Recessão, não sua causa de fundo. Mesmo se a “Rua” for melhor controlada no futuro (e eu tenho lá minhas dúvidas de que isso ocorrerá), a razão estrutural da Grande Recessão é o que ainda assombra a América. Esta razão é explosão da desigualdade americana.

Considere-se o seguinte: em 1928 os 1% dos americanos mais ricos recebiam 23,9% do total da renda nacional. Depois disso, a partilha dos 1% mais ricos declinou fortemente. As reformas do New Deal, seguidas pela Segunda Guerra Mundial, o G.I.Bill e a Great Society expandiram o círculo da prosperidade. Em fins dos anos 1970 os 1% mais ricos representavam apenas 8 a 9% do total da renda anual da América. Mas depois disso a igualdade começou a aumentar de novo, e a renda reconcentrou-se acima. 

Por volta de 2007 os 1% mais ricos estavam de volta aonde estiveram em 1928 – com 23,5% do total. As duas maiores quebras econômicas da América ocorreram nos anos imediatamente subsequentes a esses pontos máximos – em 1929 e em 2008. Não se trata de uma mera coincidência. Quando a maior parte dos ganhos do crescimento econômico ficam com uma pequena fatia de estadunidenses da elite, o resto não não tem o poder de compra para adquirir o que a economia é capaz de produzir. O salário médio dos EUA, ajustado à inflação, quase não mudou por décadas. Entre 2000 e 2007 ele na verdade despencou. Nessas circunstâncias, a única maneira da classe média manter seu poder de compra foi se endividando, como o fez com gosto. Enquanto os preços das moradias aumentaram, os americanos transformaram seus lares em caixas eletrônicos. Mas esse tipo de empréstimo tem limites. Quando a bolha da dívida finalmente explodiu, um vasto número de pessoas não pôde pagar suas contas, e os bancos não puderam receber.

A China, a Alemanha e o Japão certamente contribuíram para o problema, ao não conseguirem comprar de nós tanto como nós compramos deles. Mas acreditar que a nossa crise econômica contínua deriva principalmente de nossa balança comercial – compramos demais e poupamos pouco, enquanto eles fazem o oposto – é deixar de lado o maior desequilíbrio de todos. O problema não é que os americanos típicos tem gastado além dos seus ganhos. É que seus ganhos foram congelados junto ao que o crescimento da economia poderia e deveria poder fornecer-lhes.

Um segundo paralelo liga 1929 a 2008: quando os ganhos acumulam no andar de cima, as pessoas da elite investem sua riqueza em qualquer ativo que provavelmente atraia outros grandes investidores. Isso aumenta o preço de alguns ativos – commodities, ações, dot-coms ou investimentos imobiliários – que se tornam altamente inflados. Bolhas especulativas como essas explodem em seguida, deixando para trás montanhas de garantias sem quase valor algum.

A quebra de 2008 não se tornou uma Grande Depressão porque o governo aprendeu a importância de alimentar o mercado com dinheiro, resgatando assim temporarialmente alguns consumidores encalhados e a maioria dos grandes bancos. Mas o resgate financeiro não mudou a estrutura de fundo da economia. A média dos salários continua seu declínio e a elite continua a mexer na parte da riqueza do leão. É por isso que as classes médias ainda não têm o poder de compra necessário para levantar a economia, e porque a auto-proclamada recuperação será tão tépida - talvez levando até a uma segunda queda. Também é por isso que a América estará ainda mais vulnerável a bolhas especulativas e a explosões mais profundas nos próximos anos.

O problema estrutural começou nos fins dos anos 1970, quando houve uma onda de novas tecnologias (o transporte aéreo de cargas, os navios containeres e terminais, comunicações via satélite e, mais tarde, internet) que reduziram radicalmente os custos do trabalho no exterior. Outras novas tecnologias (automação, computadores e aplicativos de software ainda mais sofisticados) tiraram muitos outros empregos (Lembram dos caixas de banco? Dos operadores de telefones? Dos atendentes em postos de gasolina?). Nos idos dos anos 80 qualquer emprego que exigisse atividade repetitiva foi desaparecendo – indo para o exterior ou se tornando um software. Enquanto isso, ao passo que o pagamento da maioria dos trabalhadores achatava ou despencava, o pagamento dos socialmente bem conectados graduados em escolas de prestígio e programas MBAs – os assim chamados “talentos” que alcançaram o ápice do poder em suites executivas e em Wall Street – decolaram.

O que intriga é por que tão pouco foi feito para reverter essas forças. O governo poderia ter dado aos empregados mais poder de barganha para aumentarem seus salários, especialmente em idústrias protegidas da competição global e que requerem serviço pessoal: o grande comércio varejista, cadeias de restaurantes e hotéis, e assistência à criança e ao idoso, por exemplo. Redes de proteção social poderiam ter sido alargadas para compensar a ansiedade crescente frente à perda de empregos: seguro-desemprego cobrindo meio turno de trabalho, seguro salário frente à perda de poder aquisitivo, assistência na transição para novos empregos em novos lugares, seguro para comunidades que tenham perdido um grande empregador para que possam disputar novos empregadores. Com os ganhos do crescimento econômico a nação poderia ter oferecido assistência médica a todos, escolas melhores, educação fundamental e creche para as crianças, mais acessibilidade para as universidades públicas, mais transporte público de longo alcance. E se mais dinheiro fosse necessário, os impostos sobre os ricos poderiam ter aumentado.

Grandes e rendáveis companhias poderiam ter sido proibidas de demitir grandes números de trabalhadores de uma só vez, e poderiam ter de pagar indenização pela demissão – digamos, o equivalente a um ano de salário – para cada um que mandasse embora. As corporações cujas pesquisas fossem subsidiadas pelo contribuinte poderiam ter sido convocadas a criar novos empregos nos Estados Unidos. O salário mínimo poderia ter sido indexado à inflação. E os parceiros comerciais dos EUA poderiam ter sido estimulados a estabelecerem salários mínimos fixados à metade dos salários da classe média em seus países – assegurando assim que todos os cidadãos partilhassem os ganhos do comércio e que fosse criada uma classe média global que poderia comprar mais nossas exportações.

Mas começando no fim dos 70 e com um aumento fervoroso ao longo das décadas seguintes, o governo fez justamente o oposto. Desregulou e privatizou. Aumentou o custo público da educação superior e cortou o transporte público. Rasgou as redes de proteção social. Cortou pela metade o imposto de renda da elite, dos 70-90% que prevaleceram durante os anos 50 e 60 para 28-40%. Isso permitiu que muitos dos ricos do país tratassem sua renda como ganhos de capital sujeitos a não mais que 15% de taxação e escapassem também dos impostos sobre herança. Ao mesmo tempo, tanto a folha de pagamento como o estímulo ao consumo nos EUA sofreram um desfalque maior em função da diminuição da participação da classe média e dos pobres, do que dos bem remunerados.

As companhias foram autorizadas a cortar empregos e salários, aposentadorias e a transferir os riscos aos empregados (do 'você pode contar com sua aposentadoria', do “boa cobertura de saúde' ao aumento dos seguros de vida e deduções de benefícios). Eles quebraram os sindicatos e ameaçaram os empregados que tentaram se organizar. As maiores companhias se tornaram globais com não mais lealdade ou conexão com os Estados Unidos do que um serviço de GPS. Washington desregulou Wall Street enquanto o protegeu de grandes perdas, tornando a finança – que até recentemente servia à indústria da América – no seu senhor, exigindo lucros de curto prazo em vez do crescimento de longo prazo e arrastando uma porção ainda maior dos lucros do país. E nada foi feito para impedir que os salários dos executivos disparassem para mais de 300 vezes do que o de um trabalhador médio (de trinta vezes durante a Grande Prosperidade dos anos 50 e 60), enquanto o pagamento de executivos do mercado financeiro e de negociantes subiram a níveis estratosféricos.

É fácil demais culpar Ronald Reagan e sua laia republicana. Os democratas têm sido quase tão relutantes em atacar a desigualdade ou mesmo em reconhecê-la como o problema econômico e social central de nossos tempos. (Como Secretário de Trabalho da gestão Bill Clinton eu poderia saber). A razão é simples. Enquanto o dinheiro está aumentando também o está o poder político. Os políticos são mais dependentes do que nunca do dinheiro grande de suas campanhas. Washington moderna está longe de se afastar da Era de Ouro quando, tem-se dito, os lacaios dos barões do roubo literalmente depositem sacos de dinheiro nas mesas de legisladores amigáveis. O dinheiro de hoje vem na forma ou mesmo no aumento de doações de campanha de executivos das corporações e de Wall Street, seus ainda maiores pelotões de lobistas e suas hordasa de relações públicas propagandistas.

A Grande Recessão poderia ter levado a uma outra era de reformas fundamentais, assim como após a Grande Depressão. Mas o resgate financeiro reduziu demandas imediatas para reformas mais amplas. Obama pode ainda ter conseguido traçar um quadro acuradamente. Ainda assim, ao assegurar às pessoas que a economia voltaria ao normal ele perdeu uma oportunidade chave de expor o flagelo do aumento da desigualdade e seus perigos. Conter a crise financeira imediata e então afirmar que a economia estava em recuperação deixa as pessoas com uma idéia difusa dos problemas econômicos que ficam parecendo não relacionados entre si e inexplicáveis, como se um incêndio na cidade fosse enfrentado principalmente com uma conflagração, ao se proteger os grandes edifícios de escritórios enquanto deixa o resto da cidade cozinhando em fogo brando: falências domésticas, perda de empregos, diminuição da renda, insegurança econômica, aumentando o pagamento em Wall Street e nas suítes executivas.

A legislação para melhorar o sistema da assistência em saúde dos EUA [Healthcare] ilustra o paradoxo. Inicialmente, a nação estava fortemente favorável. Mas o presidente e os líderes democratas fracassaram em relacionar a reforma na saúde a uma agenda maior de distribuição ampla da prosperidade. Dessa maneira, como o desempergo cresceu ao longo de 2009, a população compreensivelmente voltou sua atenção à perda de empregos e diminuição de salários, frente aos quais a assistência em saúde parecia um problema menor. Consequentemente, o país não se mobilizou ativamente por uma reforma como seria necessário para enfraquecer o poder das grandes empresas farmacêuticas e das seguradoras privadas de saúde, que exigiram que qualquer assim chamada reforma melhorasse os seus próprios ganhos. A legislação resultante é dispensável para a direita, porque não controlaria adequadamente os custos e demanda que os estadunidenses paguem mais pelo seguro-saúde do que o fariam se o projeto não tivesse sido aprovado. Basicamente a mesma coisa ocorreu com os esforços para reformar o sistema financeiro. 

A Casa Branca e os líderes democratas poderiam ter descrito o maior objetivo como sendo a reconstrução das instituições econômicas que oferecem maior recompensa para relativamente poucos enquanto impõem custos e riscos extraordinários para todos os outros. Em vez disso, eles definiram o objetivo estreitamente: reduzir riscos para o sistema financeiro causados pelas práticas particulares de Wall Street. A solução então se estreitou num conjunto de consertos voltados a como a “Rua” deveria conduzir seus negócios.

Até o desastre no Golfo do México poderia ter sido apresentado num quadro mais amplo, de como corporações gigantes usam sua influência para capturar os reguladores e impôr os riscos e os custos à população, no exterior e a importância fundamental da saúde pública e da segurança ambiental para espalhar a prosperidade. Mas aqui de novo a administração e os líderes democratas fracassaram em conectar ambas as coisas. O desastre se tornou uma questão técnica a respeito de como interromper o vazamento de petróleo e uma discussão política de como regular a perfuração em águas profundas.

Se nada mais for feito, a guinada para a ampla desigualdade das últimas três décadas dos EUA é um convite aberto para um demagogo futuro que desconecte as questões, culpe os imigrantes, os pobres, o governo, as nações estrangeiras, os “socialistas” ou as “elites intelectuais” pelo crescimento das frustrações da classe média. O maior problema da hora do dia na política americana não estará mais entre democratas e republicanos, liberais ou conservadores. Estará entre ser do “establishment” e a população cada vez mais enlouquecida, determinada a “tomar a América de volta” deles. Quando eles entenderem onde isso leva, os interesses poderosos que até agora resistiram às reformas podem vir a perceber que a alternativa é muito pior.

Um pêndulo virtual sustenta a política econômica americana. Nós vamos de eras em que os benefícios do crescimento econômico eram concentrados em poucas mãos para um período em que os ganhos são distribuídos mais amplamente, e então voltamos ao estado inicial. Estamos nos aproximando do fim de um ciclo desses e do começo de um novo. A questão não é se o pêndulo vai voltar ao estado anterior, mas como ele vai se mover – se com reformas que aumentem o círculo de prosperidade ou se com a demagogia que faz a América dar as costas para o resto do mundo, encolhendo a economia e pondo os americanos uns contra os outros.

Nenhum de nós pode se desenvolver numa nação dividida entre um pequeno número de pessoas recebendo uma quantidade ainda maior da renda e da riqueza da nação, enquanto todo o resto recebe uma parte cada vez menor. A desigualdade não apenas diminui o crescimento econômico como também esgarça o tecido social de nossa sociedade. Os mais afortunados dentre nós, que alcançaram o auge do poder econômico e do sucesso dependem de uma economia e de um sistema político estáveis. Essa estabilidade repousa na confiança pública de que o sistema opera no interesse de todos nós. Qualquer perda dessa confiança ameaça o bem estar de todos. Escolheremos a reforma, eu acredito, porque somos uma nação com sensibilidade, e a reforma é a única opção sensível que temos.

(*) Ex-Secretário do Trabalho do governo Bill Clinton e Professor de Políticas Públicas na Universidade da Califórnia, Berkeley

Tradução: Katarina Peixoto

sábado, 23 de janeiro de 2010

ARTIGO - Arrogância e patifaria

22/01/2010 16:37:43

Quem assistiu às audiências transmitidas ao vivo pode ver a forma revoltante como esses cavalheiros se eximiram de quaisquer responsabilidades pela tragédia que produziram, quase se divertindo ao atribuir a culpa ao Fed, pela frouxidão, e aos governos, por deixá-los agir livremente. Aproveitaram o circo televisivo montado na comissão para demonstrar o absoluto desrespeito aos congressistas ao ser cobrados das patifarias que eles se recusam a reconhecer como tais. Para eles, o que aconteceu é fruto de circunstâncias normais no mercado, onde a regra é a competição: “A vida é assim, nós vivemos num sistema competitivo, vence quem mais compete, ganha mais dinheiro e leva o seu, rapidamente. E assim as coisas devem continuar...”

Mostraram-se naturalmente escandalizados com a proposta de Obama de instituir a partir de 2011 um imposto sobre as operações bancárias para devolver ao contribuinte pelo menos uma parte da montanha de dinheiro que o Erário destinou à salvação do sistema bancário. Com enorme insensibilidade fazem questão de ignorar que se trata de um problema moral e não apenas econômico, argumentando que o imposto “vai ser pago pelos próprios clientes, quer dizer, no final, pelos contribuintes...”

Digam o que disserem, a ideia do imposto é correta, é uma ação punitiva até razoável e, no mínimo, representa uma satisfação à sociedade. Pelo que se viu, no entanto, dada a reação tíbia dos representantes diante da ousadia e desfaçatez dos depoentes, o presidente Obama vai passar muito apertado para conseguir a aprovação do imposto nas duas casas do Congresso. As transmissões pela tevê serviram para mostrar como o sistema financeiro exerce o seu poder sobre os congressistas.

Creio mesmo que a reação dura de Obama, num pronunciamento mais enfático que o normal, é para realçar a repulsa do cidadão e alertar os congressistas, porque as medidas de correção dos desvios nos mercados financeiros precisam ser aprovadas no Congresso e ficou evidente a subserviência dos membros da comissão parlamentar perante os banqueiros. Não devíamos nos espantar muito com essa relação de dependência: até agora não foi aceita nenhuma das restrições necessárias para impedir a repetição da enorme tragédia gestada no sistema financeiro.

Os banqueiros que compareceram às audiências na comissão comportaram-se como aqueles barões das finanças do início do século XXI, para quem a eventual elevação das taxas de desemprego era algo inerente ao progresso capitalista e até mesmo salutar, porque resultava em maiores esforços para aumentar a produtividade. É quase inadmissível que essas atitudes possam se repetir no novo século, num momento em que se contabiliza a perda de alguns milhões de empregos nos países desenvolvidos. No auge da crise, somente nos Estados Unidos, foram 5 milhões os postos de trabalho suprimidos e, no mínimo, outros 10 milhões no restante do Hemisfério Norte. Nos paí-ses mais pobres (os dados foram divulgados pela FAO, organismo das Nações Unidas), no fim do primeiro ano após setembro de 2008, o número de vítimas da fome havia crescido para algo acima de 90 milhões de seres humanos.

Os excessos de arrogância desse grupo de banqueiros talvez acabem ajudando o presidente a vencer a resistência no Congresso e aprovar algumas das medidas que propôs para melhorar a regulação nos mercados financeiros, no curto prazo. Obviamente, Obama não está se referindo ao sistema financeiro como um todo, mas, sim, estigmatizando aqueles que insistem em deixar abertas as oportunidades para um novo desastre.


Delfim Netto

Sextante

Fonte: Carta Capital. http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=5906

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

EUA tecnicamente já deixaram recessão, diz Fed de Chicago

Washington, 13 jan (EFE).- A recessão econômica iniciada nos Estados Unidos em dezembro de 2007, a mais prolongada e profunda desde a Grande Depressão, tecnicamente terminou, disse hoje o presidente da divisão de Chicago do Federal Reserve (Fed, banco central), Charles Evans.

Em discurso em Coralville, no estado de Iowa, Evans reconheceu que o índice de desemprego continua "muito alto", mas disse que os indicadores mais amplos da economia americana apontam para uma retomada. "Em um sentido técnico, estrito, a recessão terminou", afirmou.

O índice de desemprego se manteve em 10% em dezembro, mês em que a economia teve uma perda líquida de 85 mil postos de trabalho. No entanto, sublinhou Evans, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 2,2% no terceiro trimestre, após ter contração em quatro trimestres consecutivos. As medidas de emergência adotadas pelo Fed, que desde o fim de 2007 inundaram os mercados com dinheiro para sustentar o sistema financeiro e reativar a economia, podem representar um risco de uma inflação alta caso a atividade econômica acelere.

Evans disse confiar que a política monetária manterá a inflação dentro do que considerou razoável, de 2% a médio prazo. Levando em conta a atual fragilidade da economia, Evans acredita que o núcleo da inflação (que exclui preços de alimentos e energia) será de apenas 1,75% em 2012, o que se insere nas metas que o Fed considera aceitáveis para a estabilidade dos preços.

http://economia.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2010/01/13/eua-tecnicamente-ja-deixaram-recessao-diz-fed-de-chicago.jhtm

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Setor privado nunca ganhou tanto dinheiro como hoje, diz Lula a jornal britânico

Em entrevista ao diário britânico "Financial Times" publicada nesta segunda-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que o setor privado nunca ganhou tanto quanto hoje no Brasil.

O jornal perguntou ao presidente sobre a interferência do Estado na economia, citando a criação da nova empresa para cuidar das reservas pré-sal e a pressão do governo sobre a Vale para que produza aço no Brasil, ao que Lula respondeu: “duvido que em algum momento da história o setor privado tenha tido tanto respeito do Estado como tem hoje, ou tenha ganhado tanto dinheiro”.

“O que peço à Vale é que transforme o minério de ferro em aço no Brasil, e que eles comprem navios de estaleiros brasileiros.”

Lula diz que a discussão sobre o papel do Estado na economia ficou obsoleta com a recente crise financeira, mas afirmou: “sou contra o Estado ser o gerente da economia”.

“O Estado tem que ser forte – mas como um catalisador do desenvolvimento. E temos mantido sólidas políticas fiscal e monetária. Foi por isso que o setor bancário não quebrou durante a crise no Brasil.”

Na extensa entrevista, publicada em página inteira no jornal, Lula faz um balanço de seu governo e da situação econômica do Brasil e afirma que os avanços são irreversíveis.

“Muitos analistas temem que o excesso de liquidez que está aumentando a cotação dos ativos brasileiros – a moeda se valorizou 36% frente ao dólar neste ano e os mercados de ações tiveram ganhos de 135% em termos de dólar – poderia facilmente retrair caso a crise global entre em um segundo estágio”, diz o "FT", citando que o aumento dos gastos com políticas de bem estar social e na folha de pagamento do setor público também poderiam se tornar uma bomba relógio fiscal no Brasil.

“Mas Lula usa sua própria história pessoal como prova de que o Brasil passou por mudanças irreversíveis”, diz o jornal.

O presidente disse ao "FT" que durante os 12 anos em que foi candidato sem vencer as eleições, amadureceu.
“E eu era o único que não podia fracassar. Eu não podia fazer o que (Lech) Walesa fez na Polônia (num mandato tão pouco impressionante que ele não foi reeleito), ou nenhum trabalhador jamais poderia ser eleito presidente de novo”, disse Lula.

Entre ser eleito e tomar posse, Lula lembra que escreveu uma carta ao povo brasileiro –que na verdade era direcionada aos investidores estrangeiros – afirmando que iria honrar todos os contratos e evitar uma aventura.

Segundo o jornal, seu governo manteve as políticas econômicas em vigor, e muitos que estavam preocupados com uma virada para a esquerda, quando ele assumiu, simplesmente "não entenderam o que se passava".

Lula conta que “estava trabalhando obsessivamente sob a convicção de que não podia cometer nenhum erro”. O "FT" lembra que apenas uma década atrás o Brasil teve que desvalorizar o real e pedir ajuda ao FMI em consequência das crises financeiras da Ásia e Rússia. “Mas hoje, as mesas viraram”, afirma.

Citando o crescimento econômico, a estabilidade, o sucesso de programas como o Bolsa Família e o fato de o Brasil ter sido escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014 e o Rio de Janeiro ter sido eleito para sediar os Jogos Olímpicos de 2016, o "FT" afirma que muitos no Brasil parecem acreditar que, finalmente, sua hora chegou.

O jornal ainda comenta a mudança na política internacional do país, afirmando que o governo Lula parou de focar apenas nos parceiros comerciais e aliados tradicionais, como Estados Unidos e União Europeia, a favor da diversificação e estabelecendo laços com outras partes do mundo, como a Ásia, o Oriente Médio e a África, lembrando que a China é hoje o maior parceiro comercial do Brasil.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O declínio do poder do dólar

Juros baixos e deficit em expansão nos EUA são obstáculos para indústrias estrangeiras

foto-ilustração de Tony Cenicola/The New York Times






Por NELSON D. SCHWARTZ
Paris

Um dos efeitos mais carregados de presságios na atual crise global é que muitos bancos centrais estão repensando o status do dólar como divisa de reserva, segundo especialistas. Isso, somado a fatores como os juros historicamente baixos e a disparada do deficit público federal dos EUA, agrava o declínio da moeda americana.
Em longo prazo, um dólar fraco pode reduzir o antigo deficit comercial dos EUA, ajudando a diminuir a disparidade entre exportações e importações, uma vez que os produtos norte-americanos se tornam mais acessíveis no exterior.

Mas, para quem tenta exportar para os EUA -sejam ternos italianos, vinhos franceses, eletrônicos japoneses ou carne argentina-, isso dificulta os negócios, já que seus produtos se tornam mais caros para os norte-americanos. A queda do dólar é um fator central na recente elevação do petróleo para acima dos US$ 75 por barril, o que significa gasolina mais cara.

Mas há outro lado positivo, ao menos para os norte-americanos: um dólar fraco pode se revelar benéfico para a economia dos EUA ao ajudar indústrias que há muito tempo sofrem, reconstruindo uma base industrial forte e estimulando as exportações, mesmo que isso dificulte a vida de parceiros comerciais de todo o mundo, especialmente da Europa.

"Desde que ele não quebre, um declínio gradual e ordeiro é saudável", disse C. Fred Bergsten, diretor do Instituto Peterson para a Economia Internacional. "O dólar subiu 40% entre 1995 e 2002, então esse é um reequilíbrio necessário."

Mesmo assim, esta tem sido a queda mais rápida do dólar em seis anos; nas últimas semanas, o euro chegou a quase US$ 1,50, contra o US$ 1,25 que valia em março. A libra também avançou, de US$ 1,41 em abril para US$ 1,64 há poucos dias.

A discussão política nos Estados Unidos sobre a trajetória do dólar é acompanhada por um acirrado debate entre economistas.

"A fraqueza do dólar é um grande problema para os empregos e o nível de vida dos norte-americanos", disse David Malpass, economista de Wall Street e grande crítico do declínio da moeda. "Conforme o dólar se desvaloriza, temos menos capital e poder de compra em comparação ao resto do mundo, e há um crescente risco de taxas de juros e inflação mais altas."

Já Bergsten argumenta que o dólar está apenas voltando a ter uma cotação justa diante de outras moedas, se a intenção dos EUA for continuar reduzindo seu deficit comercial.

Com a recente desvalorização, afirmou, o dólar está adequadamente cotado frente ao euro, mas ainda precisa perder 10% diante de moedas asiáticas como o iene para que as empresas norte-americanas concorram em pé de igualdade.

E, apesar de todas as flutuações em relação às principais moedas, o dólar não se mexeu recentemente frente ao yuan chinês, que é administrado por Pequim de modo a permitir que os exportadores chineses aproveitem uma moeda fraca e conquistem mercados globais.

O secretário de Tesouro dos EUA, Timothy Geithner, tem reiterado que o governo é a favor de um dólar forte, mas que os mercados cambiais estão focados na improvável perspectiva de medidas concretas, como uma alta dos juros.

"O governo de Barack Obama pode dizer que quer um dólar forte", disse Neil Mellor, estrategista cambial da BNY Mellon Global Markets, no Reino Unido. "Mas todo o mundo sabe que ele não tem os meios para sustentar isso. O Federal Reserve [Banco Central dos EUA] não pode elevar as taxas [de juros], e a Casa Branca tão logo não pode cortar o deficit orçamentário."

Se o dólar continuar caindo e o euro continuar subindo, isso pode aumentar as tensões comerciais com a Europa, especialmente com grandes exportadores, como a Alemanha, que já foram duramente afetados pela crise global.

"A força do euro está vindo absolutamente na hora errada", disse Jens Nagel, diretor do departamento internacional da Associação dos Exportadores Alemães. "Os EUA são o nosso maior parceiro comercial depois da União Europeia, e isso é um grande golpe para a recuperação das empresas automobilísticas e dos exportadores industriais."
Mellor prevê que o euro chegará a US$ 1,60 até o começo de 2010.

Com a recuperação da economia global e a retomada da produção industrial, as empresas estão priorizando suas fábricas mais competitivas, como as dos EUA, disse Pierre Dufour, vice-presidente-executivo da francesa Air Liquide, fornecedora de gases industriais para siderúrgicas, fábricas de semicondutores e outros gigantes industriais mundiais.

"Isso tem dois lados, como sempre", disse Carl Martin Welcker, dono de uma fábrica alemã de máquinas operatrizes, a Schütte, cujos equipamentos produzem 80% das velas de ignição do mundo. "Por um lado, torna nossas máquinas significativamente mais caras; por outro, estamos vendo companhias internacionais levando sua produção de volta para os EUA, o que ajuda nossas vendas por lá."


Ajuda do governo dos EUA alimentou alta recente em Wall Street

Por GRAHAM BOWLEY

Ao mesmo tempo em que a economia dos EUA continua a enfrentar dificuldades, boa parte de Wall Street está ganhando muito dinheiro -e mais uma vez antevendo bônus polpudos.

Muitos se perguntam como isso pode ser. Como é possível que alguns bancos já estejam prosperando tão pouco tempo após um colapso financeiro, enquanto multidões de americanos temem perder seus empregos e suas casas?

As pessoas talvez se surpreendam ao descobrir que uma das forças mais poderosas que está alimentando a retomada em Wall Street não é formada pelos bancos, mas por Washington. Muitas das medidas tomadas pelos políticos no ano passado para estabilizar o sistema financeiro -a redução dos juros a quase zero, o reforço dos grandes bancos com injeções de dinheiro dos contribuintes, a avalização de bilhões de dólares das dívidas das instituições financeiras- ajudaram a preparar o cenário para esta nova era de riqueza em Wall Street.

Gigantes como Goldman Sachs e JPMorgan Chase estão fazendo fortunas em setores em alta como o comércio de ações e títulos, em lugar de enriquecer concedendo crédito às pessoas. Cada um deles anunciou lucros superiores a US$ 3 bilhões no terceiro trimestre. Além disso, estão lucrando ao assumir mais riscos que concorrentes mais fracos -benefício resultante da concorrência reduzida. Assim, ao mesmo tempo em que os grandes bancos rejeitam propostas de regulamentação maior, Wall Street tem Washington a agradecer, em parte, por sua bonança mais recente.

"Tudo isso é facilitado pelo Fed (Banco Central dos EUA) e pelo governo, que querem que as instituições financeiras voltem a conceder empréstimos", disse Gary Richardson, pesquisador do Birô de Pesquisas Econômicas dos EUA. "Acabamos de mostrar a elas que desembolsaremos trilhões de dólares para protegê-las. Isso me preocupa muito."

Nem todos os bancos estão se saindo tão bem assim. O Citigroup e o Bank of America, cuja sorte está ligada aos altos e baixos dos consumidores comuns, estão lutando para dar uma virada.

Mas o declínio de algumas instituições, ao lado da queda de concorrentes antes fortes como o Lehman Brothers, concentrou o poderio financeiro dos EUA em menos mãos. Agora, os fortes têm poder maior para arrancar mais lucro dos mercados financeiros e para cobrar taxas mais altas.

"Eles podem cobrar mais por seus serviços, porque as empresas precisam de bancos comerciais e bancos de investimento, e há poucos para ajudá-las", disse Douglas Elliott, do Brookings Institution, organização de Washington que analisa políticas públicas.

Agora, o setor conta com novas ferramentas, graças ao governo. Com os juros tão baixos, os bancos podem emprestar dinheiro barato e aplicá-lo de maneiras lucrativas, quer seja para conceder empréstimos a empresas a juros mais altos, quer seja para especular nos mercados. As negociações de renda fixa -uma área que inclui títulos e divisas- vêm sendo especialmente lucrativas.

"Os resultados fortes das negociações lideraram", disse Howard Chen, analista de bancos no Credit Suisse, descrevendo os lucros mais recentes.

Para prevenir um colapso financeiro catastrófico que teria afetado toda a economia, o governo injetou bilhões de dólares nos bancos. Desde então, algumas instituições grandes, como o Goldman e o Morgan, já restituíram ao governo o dinheiro que receberam no pacote de socorro. Mas a maior parte do setor dos bancos ainda goza de outras formas de apoio do governo, e isso vem ajudando a elevar seus lucros.
O Goldman Sachs e seu rival Morgan Stanley foram autorizados a converter-se em holdings bancários à moda antiga. Essa mudança lhes deu acesso a financiamentos baratos do Fed, até então fora de seu alcance.

Esses dois bancos e outros, como o JPMorgan, também foram autorizados a emitir dezenas de bilhões de dólares em obrigações garantidas pela Corporação Federal de Seguro de Depósitos (FDIC), que segura depósitos bancários. Com a garantia, os bancos puderam contrair os empréstimos em condições vantajosas. É verdade que os bancos também estão se beneficiando da estabilização da economia. "A confiança voltou", disse Shubh Saumya, especialista em serviços financeiros no Boston Consulting Group. "Os banqueiros estão reavendo alguns dos ativos que eles desvalorizaram no ano passado, no meio da crise."

Uma razão importante dos lucros notáveis obtidos pelo Goldman Sachs neste ano é a disposição de seus negociantes em assumir riscos grandes -eles disponibilizaram mais dinheiro, enquanto outros bancos atingidos em 2008 frearam esse tipo de ação.

Executivos dizem que há abismos estratégicos abrindo-se entre bancos de Wall Street, que estão assumindo mais riscos, e outros que estão optando por trilhar um caminho mais seguro.

Mesmo assim, o sucesso recente se limita em grande medida às grandes firmas de Wall Street que trabalham com títulos de crédito. Recentemente, o Citigroup e o Bank of America anunciaram perdas com inadimplências de cartões de crédito e hipotecas -sinal das dificuldades que ainda acometem a população e o setor produtivo dos EUA.


Fonte: Jornal Folha de São Paulo - New York Times. São Paulo, segunda-feira, 26 de outubro de 2009
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/ny2610200901.htm