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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Relações perigosas - China e Estados Unidos


China fecha acordo para comprar US$ 45 bilhões em produtos dos EUA

Por Thais Romanelli*
Os Estados Unidos e a China firmaram nesta quarta-feira 19, um acordo de exportação no valor de 45 bilhões de dólares em produtos norte-americanos, incluindo um contrato de 19 bilhões de dólares para venda de 200 jatos da Boeing para o país asiático. O anúncio ocorreu durante a visita do presidente chinês, Hu Jintao, ao presidente norte-americano, Barack Obama, na Casa Branca.
De acordo com a Boeing,  a China comprará 185 aviões do modelo 737, em um pedido estimado em 15 bilhões de dólares a preço de lista, além de 15 Boeing 777, que custam cerca de quatro bilhões de dólares. Desta forma, o país se tornará o maior comprador da Boeing até 2030. Ainda de acordo com o fabricante, a entrega das aeronaves deverá ocorrer até 2013.
Além dos jatos, a China vai comprar produtos na área agrícola, de telecomunicações e tecnologia, firmando acordos com empresas como a Honeywell, Navistar e General Electric, com quem cinco contratos foram firmados. Segundo a Casa Branca, estima-se que com medidas como a joint venture com a estatal de energia China Huadian para desenvolver geradores de energia a gás 4,5 mil empregos nos EUA serão criados. O acordo, que deve criar receitas de 500 milhões de dólares ao longo dos próximos cinco anos, gerará um milhão de dólares em exportações.
A GE assinou ainda um acordo de intenções com o Ministério de Transportes da China em que está previsto o fornecimento de 350 milhões de dólares em equipamentos para as ferrovias do país.
Já com a Shenhua Group, o presidente chinês se comprometeu a comprar tecnologia da empresa para desenvolver a gaseificação de carvão na China. Com isso, estima-se que a GE tenha um lucro de 150 milhões de dólares em cinco anos.
Após a assinatura dos acordos, ambos os presidentes comemoraram as cooperações. Para Obama, a visita de Hu – primeira desde 2006 – estabelecerá as bases para os próximos 30 anos de cooperação bilateral. “Nós seremos mais prósperos e mais seguros se trabalharmos juntos”, disse.
Já o presidente chinês, disse que o relacionamento entre os dois países deveria ter como base o “respeito mútuo”, mas deu credibilidade aos “resultados frutíferos” que poderão ser colhidos. “Conquistamos um novo progresso”, completou.
Agora, com os acordos e os investimentos chineses nos EUA a expectativa é que o governo e as empresas norte-americanas aliviem a pressão que vem fazendo sobre a China em relação a sua política cambial, uma das principais divergências entre os dois países.
Guerra cambial
A visita de Hu Jintao ocorre em um momento tenso entre os EUA e a China. Desde o ano passado, os dois países vivem uma guerra cambial. Os EUA  acusam a China de manter sua moeda, o yuan, artificialmente desvalorizada em relação ao dólar, o que prejudica as exportações norte-americanas.
Com isso, o déficit na balança comercial dos EUA com a China é grande, atingindo importações de 344,1 bilhões de dólares e exportações de 81,8 bilhões de dólares.
Diante deste cenário, a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, disse antes do encontro entre os dois presidentes em entrevista à rede de TV ABC, que os EUA vão defender a todo custo seus próprios interesses econômicos.
Para ela, ainda não há como afirmar se os chineses são amigos ou inimigos. “A razão pela qual estamos estendendo o tapete vermelho e recebendo o presidente Hu Jintao em visita de Estado é que achamos que teremos uma resposta melhor para essa pergunta se seguirmos adiante”, disse.
Direitos humanos
Após a reunião entre os presidentes, Hu e Obama concederam uma coletiva de imprensa na Casa Branca. Durante o evento, o norte-americano afirmou que seu colega deve enfrentar questões relacionadas com os direitos humanos na China.
“A história mostra que as sociedades são mais harmoniosas, as nações são mais bem-sucedidas e o mundo é mais justo quando os direitos e responsabilidades de todas as nações e de todas as pessoas são acolhidos. Inclusive os direitos universais de cada ser humano”, disse Obama, que garantiu que os EUA continuarão defendendo a liberdade de expressão e de religião para o povo chinês.
“Na medida em que os EUA reconhecem o Tibete como parte integrante da República Popular da China, os EUA sugerem o diálogo entra a China e o Dalai Lama para resolver as divergências e preservar a identidade religiosa do povo tibetano”, acrescentou.
Hu, por sua vez, destacou que os EUA e a China devem respeitar as suas soberanias visando ampliar a discussão sobre os direitos humanos. Para o presidente chinês, realmente ainda há “muito por fazer” no país em termos de direitos humanos, baseando-se no princípio de “respeito mútuo e na não interferência” nos seus assuntos internos.
Durante a visita de Hu Jintao, ativistas reuniram-se do lado de fora da Casa Branca fazendo um apelo à Obama para que ele interviesse na prisão do o Prémio Nobel da Paz, Liu Xiaobo.
*Matéria publicada originalmente no Opera Mundi

quinta-feira, 22 de abril de 2010

E.U.A. - como regular o Mercado Financeiro


21/04/2010

Wolf: o desafio de parar a máquina do juízo final financeiro

Financial Times
Martin Wolf
Nós podemos bancar nosso sistema financeiro? A resposta é não. Entender o motivo é uma condição necessária para a avaliação das ideias para uma reforma. Quanto mais ciente dos riscos alguém estiver, mais óbvio ficará que o radicalismo é a opção mais segura. 
As pessoas prestam muita atenção no custo direto dos resgates. Como notou Andrew Haldane do Banco da Inglaterra, autor de vários trabalhos brilhantes sobre a crise, esses custos podem ser em torno de 1% do produto interno bruto nos Estados Unidos e Reino Unido. Os custos que importam, entretanto, são os da recessão e de um aumento imenso na dívida pública. Se apenas um quarto das perdas de produto mundiais que ocorreram durante a recessão se tornar permanente, o valor atual dessas perdas poderia ser de até 90% do produto mundial anual. 
Como isso aconteceu? De modo simples, o setor financeiro se tornou maior e mais arriscado. O caso do Reino Unido é dramático, com os ativos bancários saltando de 50% do PIB para mais de 550% ao longo das últimas quatro décadas. As proporções de capital caíram acentuadamente, enquanto o retorno sobre o patrimônio líquido se tornou maior e mais volátil. Como Haldane nota em outro trabalho, a alavancagem é a principal determinante dos retornos sobre o patrimônio líquido e a maior alavancagem também explica o nível e volatilidade do retorno dos bancos. Finalmente, o setor bancário também se tornou substancialmente mais concentrado. 
Haldane se queixa de “um aumento progressivo no risco bancário, acompanhado de um alargamento e aprofundamento da rede de segurança do Estado”. Esta é uma “Corrida da Rainha Vermelha”: o sistema está correndo sem sair do lugar, com o governo correndo para tornar as finanças mais seguras e os banqueiros criando mais riscos. A rota seria via seguro da liquidez, dos depósitos e do capital. Haldane nota que as agências de classificação de crédito avaliam o apoio do governo aos bancos. O apoio do governo deve certamente fornecer parte da explicação para os baixos rendimentos nos títulos emitidos por essas empresas enormemente alavancadas. 
A combinação de seguro pelo Estado (que protege os credores) com obrigação limitada (que protege os acionistas) cria uma máquina do juízo final financeiro. O que acontece é melhor descrito como um “descuido racional”. Seu efeito mais perigoso ocorre por meio dos extremos do ciclo de crédito. Desses o mais perigoso é a compulsão pelas autoridades de inflar outro conjunto de bolhas de crédito, para impedir o impacto devastador da implosão das últimas bolhas. No final, o que acontece às finanças não é o que mais importa, mas o que as finanças fazem para a economia mais ampla. 
O sistema financeiro engordado atual produz ganhos que justificam esses custos? Em um discurso recente, Adair Turner, presidente da Autoridade de Serviços Financeiros do Reino Unido, argumenta que não.* Os sistemas financeiros são servos importantes para a economia, mas mestres ruins. Uma grande parte da atividade do setor financeiro parece ser uma máquina de transferência de renda e riqueza das pessoas de fora para as pessoas de dentro, aumentando ao mesmo tempo a fragilidade da economia como um todo. Dada a extensão das distorções induzidas pelo governo no sistema, até mesmo o defensor mais ferrenho do livre mercado tem que aceitar isso. É difícil ver qualquer benefício substancial da imensa alavancagem para a economia e, acima de tudo, para o setor imobiliário, como vimos recentemente. Isso apenas criou ganhos ilusórios na alta e dores reais na baixa. 
Como Turner nota, a promessa da securitização revelou ser parcialmente ilusória. Os argumentos utilizados em seu favor –“completar o mercado” e a capacidade de estender mais amplamente o crédito– parecem altamente questionáveis. Particularmente notável foi o fracasso do mercado de swap de crédito de fornecer qualquer alerta da crise financeira. Resumindo, a invenção de papéis complexos exacerbou enormemente os problemas de informação e incentivo inerentes em sistemas financeiros complexos. Até mesmo o argumento ouvido com frequência de que uma maior liquidez de mercado é melhor do que uma menor está longe de inatacável: ela exacerbou o descuido racional. 
E o que deve ser feito? Para responder essa pergunta, é preciso começar a reconhecer os principais riscos: primeiro, os países ricos, com sua baixa taxa de crescimento e custos imensos de envelhecimento, não podem bancar outra crise; segundo, a questão maior é o impacto sobre a economia. 
Com base nesses padrões, o que pensar das ideias que atualmente estão sendo apresentadas? Três ideias comuns precisam ser colocadas em seu devido lugar. 
Uma ideia, popular nas rodas republicanas americanas, é: “apenas diga não” aos resgates. Isso é uma ilusão. Como as instituições financeiras são poderosamente interligadas, o governo não pode de forma crível se comprometer a não resgatar o sistema quando estiver em perigo. 
Outra ideia, popular entre os liberais americanos, é que a questão principal é “grande demais para falir”. Haldane mostra que o seguro implícito aos grandes bancos é maior do que aos menores. Ele também concorda que as economias de escala no setor bancário são modestas. O desafio da gestão dessas instituições complexas é enorme. Finalmente, a diversificação que essas instituições buscam é no final ilusória: todas elas estão expostas aos riscos que atingem toda a economia. 
Mas é importante não exagerar a importância apenas do tamanho. Um ponto é o de que alguns dos sistemas que atravessaram a crise relativamente em segurança –o do Canadá, por exemplo– são dominados por oligopólios bancários estáveis. Outro é que, como aconteceu nos Estados Unidos nos anos 30, o colapso de muitos bancos pequenos e não diversificados pode ser altamente destrutivo. O tamanho importa. Mas certamente não é só o que importa. 
Uma terceira noção é de que a grande questão é a de uma maior regulamentação. Argumenta-se que se uma supervisão tivesse sido imposta de modo eficaz, o padrão de alavancagem excessiva e calote poderia ter sido detido. Isso também é improvável. É difícil regulamentar as finanças enfrentando os incentivos para aqueles que as conduzem. O conserto do problema deve incluir a mudança dos incentivos de formas simples e transparentes. Para falar de modo claro, os participantes devem temer as consequências de cometer erros sérios, não apenas serem ditos para parar. 
No final, parar a máquina do juízo final financeiro envolverá mudanças fundamentais nas políticas em relação ao sistema financeiro (e sua estrutura). Há duas abordagens gerais sendo discutidas. A oficial é aproximadamente tornar o sistema atual mais seguro, elevando as exigências de capital e liquidez, transferindo os derivativos para as bolsas de valores e aplicando uma regulamentação mais prudente. A alternativa é a reforma estrutural. Qual é a opção menos ruim? Eu planejo discutir isso na próxima semana. 
*O que os bancos fazem e o que devem fazer?
Tradução: George El Khouri Andolfato

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Artigo de Paul Krugman

06/02/2010

Krugman: Nem todos os economistas estão preocupados com o déficit orçamentário (dos E.U.A.)

Paul Krugman

Atualmente está difícil pegar um jornal ou assistir a um programa de notícias sem encontrar sérios alertas a respeito do déficit orçamentário federal. O déficit ameaça a recuperação econômica, nos é dito; ele coloca a estabilidade econômica americana em risco; ele mina nossa influência no mundo. Essas alegações geralmente não são feitas como sendo opiniões, como pontos de vista de alguns analistas, mas que são contestados por outros. Em vez disso, elas são apresentadas como sendo fatos, de forma pura e simples.

Mas não são fatos. Muitos economistas têm uma visão bem mais tranquila a respeito dos déficits orçamentários do que você verá na TV. Nem os investidores parecem indevidamente preocupados: os títulos do governo americano continuam encontrando compradores interessados, mesmo com taxas de juros historicamente baixas. O panorama do orçamento há longo prazo é problemático, mas os déficits a curto prazo não são –e mesmo o panorama a longo prazo é muito menos assustador do que o público é levado a acreditar.

Então por que a repentina ubiquidade das histórias de terror em relação ao déficit? Ela não é causada por nenhuma notícia de fato. Já era óbvio há pelo menos um ano que o governo americano enfrentaria um período prolongado de grandes déficits e as projeções desses déficits não mudaram muito desde meados do ano passado. Mas os alertas fiscais calamitosos têm se tornado cada vez mais altos e constantes.

Para mim –e não sou o único que pensa assim– o repentino surto de histeria em relação ao déficit me faz lembrar o modo de pensar coletivo que tomou conta do país durante os preparativos para a guerra no Iraque. Agora, como daquela vez, alegações dúbias, não apoiadas por evidências concretas, eram noticiadas como se não houvesse dúvida. Agora, como naquele momento, grande parte do establishment político e da mídia comprou a noção de que uma ação drástica era urgentemente necessária, mesmo sem a existência de qualquer nova informação para justificar a urgência repentina. Agora, como daquela vez, aqueles que contestam a narrativa predominante, independente de quão forte seja seu argumento e independente de quão sólido seja seu histórico, estão sendo marginalizados.

E a incitação ao medo em relação ao déficit pode acabar causando tanto mal quanto a incitação ao medo em relação às armas de destruição em massa.

Vamos falar por um momento sobre a realidade orçamentária. Diferente do que você costuma ouvir, o grande déficit que o governo está incorrendo agora não é resultado de um crescimento descontrolado dos gastos. Em vez disso, bem mais que a metade do déficit foi causada pela crise econômica em andamento, que levou a uma queda acentuada na receita de impostos, exigiu resgates de instituições financeiras por parte do governo federal e –apropriadamente– medidas temporárias para estimular o crescimento e a geração de empregos.

O fato é que incorrer em grandes déficits diante da pior recessão econômica desde os anos 30 é a coisa certa a fazer. Na verdade, os déficits deveriam ser ainda maiores, porque o governo deveria estar fazemos ainda mais do que está para criar empregos.

É verdade que há um problema orçamentário a longo prazo. Mesmo uma recuperação econômica plena não equilibraria o orçamento e provavelmente nem reduziria o déficit para um nível permanentemente sustentável. Logo, assim que a crise econômica passar, o governo americano terá que aumentar sua receita e controlar seus custos. E a longo prazo não há como fazer a matemática orçamentária funcionar a menos que algo seja feito em relação aos custos da saúde.

Mas não há motivo para pânico a respeito das perspectivas do orçamento nos próximos anos ou mesmo na próxima década. Considere, por exemplo, o que o mais recente orçamento proposto pelo governo Obama diz a respeito do pagamento de juros da dívida federal; segundo as projeções, daqui uma década eles crescerão para 3,5% do PIB. Quão assustador é isso? É praticamente o mesmo gasto com juros do governo do primeiro presidente George Bush.

Por que então toda a histeria? A resposta é política.

A principal diferença entre meados do ano passado, quando encarávamos (apropriadamente) com calma os déficits, e o atual senso de pânico é que a incitação do medo do déficit se tornou uma parte chave da estratégia política republicana, realizando uma função dupla: ela arranha a imagem do presidente Barack Obama ao mesmo tempo em que mina sua agenda de políticas. E se a hipocrisia é de tirar o fôlego –políticos que votaram por reduções de impostos que arrebentaram o orçamento se passando por apóstolos da retidão fiscal, políticos satanizando as tentativas de conter os custos do Medicare (o seguro saúde público para idosos e inválidos) em um dia (painéis da morte!), depois condenam os gastos excessivos do governo no outro –mas, o que há de novo?

O problema, entretanto, é que aparentemente é difícil para muitas pessoas distinguir a diferença entre postura cínica e argumento econômico sério. E isso provoca consequências trágicas.

Pois graças à histeria do déficit, as prioridades de Washington estão todas erradas: só se fala em como cortar alguns poucos bilhões de dólares dos gastos do governo, enquanto não há disposição para tratar do desemprego em massa. As políticas estão seguindo na direção errada –e milhões de americanos pagarão o preço.

Paul Krugman

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do New York Times desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de economia em 2008.



Fonte: UOL Noticias - Colunistas

sábado, 23 de janeiro de 2010

ARTIGO - Arrogância e patifaria

22/01/2010 16:37:43

Quem assistiu às audiências transmitidas ao vivo pode ver a forma revoltante como esses cavalheiros se eximiram de quaisquer responsabilidades pela tragédia que produziram, quase se divertindo ao atribuir a culpa ao Fed, pela frouxidão, e aos governos, por deixá-los agir livremente. Aproveitaram o circo televisivo montado na comissão para demonstrar o absoluto desrespeito aos congressistas ao ser cobrados das patifarias que eles se recusam a reconhecer como tais. Para eles, o que aconteceu é fruto de circunstâncias normais no mercado, onde a regra é a competição: “A vida é assim, nós vivemos num sistema competitivo, vence quem mais compete, ganha mais dinheiro e leva o seu, rapidamente. E assim as coisas devem continuar...”

Mostraram-se naturalmente escandalizados com a proposta de Obama de instituir a partir de 2011 um imposto sobre as operações bancárias para devolver ao contribuinte pelo menos uma parte da montanha de dinheiro que o Erário destinou à salvação do sistema bancário. Com enorme insensibilidade fazem questão de ignorar que se trata de um problema moral e não apenas econômico, argumentando que o imposto “vai ser pago pelos próprios clientes, quer dizer, no final, pelos contribuintes...”

Digam o que disserem, a ideia do imposto é correta, é uma ação punitiva até razoável e, no mínimo, representa uma satisfação à sociedade. Pelo que se viu, no entanto, dada a reação tíbia dos representantes diante da ousadia e desfaçatez dos depoentes, o presidente Obama vai passar muito apertado para conseguir a aprovação do imposto nas duas casas do Congresso. As transmissões pela tevê serviram para mostrar como o sistema financeiro exerce o seu poder sobre os congressistas.

Creio mesmo que a reação dura de Obama, num pronunciamento mais enfático que o normal, é para realçar a repulsa do cidadão e alertar os congressistas, porque as medidas de correção dos desvios nos mercados financeiros precisam ser aprovadas no Congresso e ficou evidente a subserviência dos membros da comissão parlamentar perante os banqueiros. Não devíamos nos espantar muito com essa relação de dependência: até agora não foi aceita nenhuma das restrições necessárias para impedir a repetição da enorme tragédia gestada no sistema financeiro.

Os banqueiros que compareceram às audiências na comissão comportaram-se como aqueles barões das finanças do início do século XXI, para quem a eventual elevação das taxas de desemprego era algo inerente ao progresso capitalista e até mesmo salutar, porque resultava em maiores esforços para aumentar a produtividade. É quase inadmissível que essas atitudes possam se repetir no novo século, num momento em que se contabiliza a perda de alguns milhões de empregos nos países desenvolvidos. No auge da crise, somente nos Estados Unidos, foram 5 milhões os postos de trabalho suprimidos e, no mínimo, outros 10 milhões no restante do Hemisfério Norte. Nos paí-ses mais pobres (os dados foram divulgados pela FAO, organismo das Nações Unidas), no fim do primeiro ano após setembro de 2008, o número de vítimas da fome havia crescido para algo acima de 90 milhões de seres humanos.

Os excessos de arrogância desse grupo de banqueiros talvez acabem ajudando o presidente a vencer a resistência no Congresso e aprovar algumas das medidas que propôs para melhorar a regulação nos mercados financeiros, no curto prazo. Obviamente, Obama não está se referindo ao sistema financeiro como um todo, mas, sim, estigmatizando aqueles que insistem em deixar abertas as oportunidades para um novo desastre.


Delfim Netto

Sextante

Fonte: Carta Capital. http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=5906

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

EUA tecnicamente já deixaram recessão, diz Fed de Chicago

Washington, 13 jan (EFE).- A recessão econômica iniciada nos Estados Unidos em dezembro de 2007, a mais prolongada e profunda desde a Grande Depressão, tecnicamente terminou, disse hoje o presidente da divisão de Chicago do Federal Reserve (Fed, banco central), Charles Evans.

Em discurso em Coralville, no estado de Iowa, Evans reconheceu que o índice de desemprego continua "muito alto", mas disse que os indicadores mais amplos da economia americana apontam para uma retomada. "Em um sentido técnico, estrito, a recessão terminou", afirmou.

O índice de desemprego se manteve em 10% em dezembro, mês em que a economia teve uma perda líquida de 85 mil postos de trabalho. No entanto, sublinhou Evans, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 2,2% no terceiro trimestre, após ter contração em quatro trimestres consecutivos. As medidas de emergência adotadas pelo Fed, que desde o fim de 2007 inundaram os mercados com dinheiro para sustentar o sistema financeiro e reativar a economia, podem representar um risco de uma inflação alta caso a atividade econômica acelere.

Evans disse confiar que a política monetária manterá a inflação dentro do que considerou razoável, de 2% a médio prazo. Levando em conta a atual fragilidade da economia, Evans acredita que o núcleo da inflação (que exclui preços de alimentos e energia) será de apenas 1,75% em 2012, o que se insere nas metas que o Fed considera aceitáveis para a estabilidade dos preços.

http://economia.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2010/01/13/eua-tecnicamente-ja-deixaram-recessao-diz-fed-de-chicago.jhtm