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domingo, 4 de setembro de 2011

Paul Krugman: “Podemos estar perto de reviver a crise de 1930″


Para aqueles que conhecem a história da década de 1930, o que está ocorrendo agora é muito familiar. Se alguma das atuais negociações sobre a dívida fracassar, poderemos estar perto de reviver 1931, a bancarrota bancária mundial que alimentou a Grande Depressão. Mas se as negociações tiverem êxito, estaremos prontos para repetir o grande erro de 1937: a volta prematura à contração fiscal que terminou com a recuperação econômica e garantiu que a depressão se prolongasse até que a II Guerra Mundial finalmente proporcionasse o "impulso" que a economia precisava. O artigo é de Paul Krugman.


Paul Krugman é professor de Economia em Princeton e Prêmio Nobel 2008.
Tradução: Katarina Peixoto

Esta é uma época interessante, e digo isso no pior sentido da palavra. Agora mesmo estamos vivendo, não uma, mas duas crises iminentes, cada uma delas capaz de provocar um desastre mundial. Nos EUA, os fanáticos de direita do Congresso podem bloquear um necessário aumento do teto da dívida, o que possivelmente provocaria estragos nos mercados financeiros mundiais. Enquanto isso, se o plano que os chefes de Estado europeus acabam de pactuar não conseguir acalmar os mercados, poderemos ter um efeito dominó por todo o sul da Europa, o que também provocaria estragos nos mercados financeiros mundiais.

Somente podemos esperar que os políticos em Washington e Bruxelas consigam driblar essas ameaças. Mas há um problema: ainda que consigamos evitar uma catástrofe imediata, os acordos que vêm sendo firmados dos dois lados do Atlântico vão piorar a crise econômica com quase toda certeza.

De fato, os responsáveis políticos parecem decididos a perpetuar o que está sendo chamado de Depressão Menor, o prolongado período de desemprego elevado que começou com a Grande Recessão de 2007-2009 e que continua até o dia de hoje, mais de dois anos depois de que a recessão, supostamente, chegou ao fim. 

Falemos um momento sobre por que nossas economias estão (ainda) tão deprimidas. A grande bolha imobiliária da década passada, que foi um fenômeno tanto estadunidense quanto europeu, esteve acompanhada por um enorme aumento da dívida familiar. Quando a bolha estourou, a construção de residências desabou, assim como o gasto dos consumidores na medida em que as famílias sobrecarregadas de dívidas faziam cortes.

Ainda assim, tudo poderia ter ido bem se outros importantes atores econômicos tivessem aumentado seu gasto e preenchido o buraco deixado pela crise imobiliária e pelo retrocesso no consumo. Mas ninguém fez isso. As empresas que dispõem de capital não viram motivos para investi-lo em um momento no qual a demanda dos consumidores estava em queda.

Os governos tampouco fizeram muito para ajudar. Alguns deles – os dos países mais débeis da Europa e os governos estaduais e locais dos EUA – viram-se obrigados a cortar drasticamente os gastos diante da queda da receita. E os comedidos esforços dos governos mais fortes – incluindo aí o plano de estímulo de Obama – apenas conseguiram, no melhor dos casos, compensar essa austeridade forçada.

De modo que temos hoje economias deprimidas. O que propõem fazer a respeito os responsáveis políticos? Menos que nada. A desaparição do desemprego da retórica política da elite e sua substituição pelo pânico do déficit tem verdadeiramente chamado a atenção. Não é uma resposta à opinião pública. Em uma sondagem recente da CBS News/The New York Times, 53% dos cidadãos mencionava a economia e o emprego como os problemas mais importantes que enfrentamos, enquanto que somente 7% mencionava o déficit. Tampouco é uma resposta à pressão do mercado. As taxas de juro da dívida dos EUA seguem perto de seus mínimos históricos.

Mas as conversações em Washington e Bruxelas só tratam de corte de gastos públicos (e talvez de alta de impostos, ou seja, revisões). Isso é claramente certo no caso das diversas propostas que estão sendo cogitadas para resolver a crise do teto da dívida nos EUA. Mas é basicamente igual ao que ocorre na Europa.

Na quinta-feira, os “chefes de Estado e de Governo da zona euro e as instituições da UE” – esta expressão, por si só, dá uma ideia da confusão que se tornou o sistema de governo europeu – publicaram sua grande declaração. Não era tranquilizadora. Para começar, é difícil acreditar que a complexa engenharia financeira que a declaração propõe possa realmente resolver a crise grega, para não falar da crise europeia em geral. 

Mas mesmo que pudesse, o que ocorreria depois? A declaração pede drásticas reduções do déficit “em todos os países salvo naqueles com um programa” que deve entrar em vigor “antes de 2013 o mais tardar”. Dado que esses países “com um programa” se veem obrigados a observar uma estrita austeridade fiscal, isso equivale a um plano para que toda a Europa reduza drasticamente o gasto ao mesmo tempo. E não há nada nos dados europeus que indique que o setor privado esteja disposto a carregar o piano em menos de dois anos.

Para aqueles que conhecem a história da década de 1930, isso é muito familiar. Se alguma das atuais negociações sobre a dívida fracassar, poderemos estar perto de reviver 1931, a bancarrota bancária mundial que tornou grande a Grande Depressão. Mas se as negociações tiverem êxito, estaremos prontos para repetir o grande erro de 1937: a volta prematura à contração fiscal que terminou com a recuperação econômica e garantiu que a depressão se prolongasse até que a II Guerra Mundial finalmente proporcionasse o impulso que a economia precisava.

Mencionei que o Banco Central Europeu – ainda que, felizmente, não a Federal Reserve – parece decidido a piorar ainda mais as coisas aumentando as taxas de juros?

Há uma antiga expressão, atribuída a diferentes pessoas, que sempre me vem à mente quando observo a política pública: “Você não sabe, meu filho, com que pouca sabedoria se governa o mundo”. Agora, essa falta de sabedoria se apresenta plenamente, quando as elites políticas de ambos os lados do Atlântico arruínam a resposta ao trauma econômico fechando os olhos para as lições da história. E a Depressão Menor continua.



Fonte: Sinpermiso
Reprodução: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18112

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Artigo de Paul Krugman

06/02/2010

Krugman: Nem todos os economistas estão preocupados com o déficit orçamentário (dos E.U.A.)

Paul Krugman

Atualmente está difícil pegar um jornal ou assistir a um programa de notícias sem encontrar sérios alertas a respeito do déficit orçamentário federal. O déficit ameaça a recuperação econômica, nos é dito; ele coloca a estabilidade econômica americana em risco; ele mina nossa influência no mundo. Essas alegações geralmente não são feitas como sendo opiniões, como pontos de vista de alguns analistas, mas que são contestados por outros. Em vez disso, elas são apresentadas como sendo fatos, de forma pura e simples.

Mas não são fatos. Muitos economistas têm uma visão bem mais tranquila a respeito dos déficits orçamentários do que você verá na TV. Nem os investidores parecem indevidamente preocupados: os títulos do governo americano continuam encontrando compradores interessados, mesmo com taxas de juros historicamente baixas. O panorama do orçamento há longo prazo é problemático, mas os déficits a curto prazo não são –e mesmo o panorama a longo prazo é muito menos assustador do que o público é levado a acreditar.

Então por que a repentina ubiquidade das histórias de terror em relação ao déficit? Ela não é causada por nenhuma notícia de fato. Já era óbvio há pelo menos um ano que o governo americano enfrentaria um período prolongado de grandes déficits e as projeções desses déficits não mudaram muito desde meados do ano passado. Mas os alertas fiscais calamitosos têm se tornado cada vez mais altos e constantes.

Para mim –e não sou o único que pensa assim– o repentino surto de histeria em relação ao déficit me faz lembrar o modo de pensar coletivo que tomou conta do país durante os preparativos para a guerra no Iraque. Agora, como daquela vez, alegações dúbias, não apoiadas por evidências concretas, eram noticiadas como se não houvesse dúvida. Agora, como naquele momento, grande parte do establishment político e da mídia comprou a noção de que uma ação drástica era urgentemente necessária, mesmo sem a existência de qualquer nova informação para justificar a urgência repentina. Agora, como daquela vez, aqueles que contestam a narrativa predominante, independente de quão forte seja seu argumento e independente de quão sólido seja seu histórico, estão sendo marginalizados.

E a incitação ao medo em relação ao déficit pode acabar causando tanto mal quanto a incitação ao medo em relação às armas de destruição em massa.

Vamos falar por um momento sobre a realidade orçamentária. Diferente do que você costuma ouvir, o grande déficit que o governo está incorrendo agora não é resultado de um crescimento descontrolado dos gastos. Em vez disso, bem mais que a metade do déficit foi causada pela crise econômica em andamento, que levou a uma queda acentuada na receita de impostos, exigiu resgates de instituições financeiras por parte do governo federal e –apropriadamente– medidas temporárias para estimular o crescimento e a geração de empregos.

O fato é que incorrer em grandes déficits diante da pior recessão econômica desde os anos 30 é a coisa certa a fazer. Na verdade, os déficits deveriam ser ainda maiores, porque o governo deveria estar fazemos ainda mais do que está para criar empregos.

É verdade que há um problema orçamentário a longo prazo. Mesmo uma recuperação econômica plena não equilibraria o orçamento e provavelmente nem reduziria o déficit para um nível permanentemente sustentável. Logo, assim que a crise econômica passar, o governo americano terá que aumentar sua receita e controlar seus custos. E a longo prazo não há como fazer a matemática orçamentária funcionar a menos que algo seja feito em relação aos custos da saúde.

Mas não há motivo para pânico a respeito das perspectivas do orçamento nos próximos anos ou mesmo na próxima década. Considere, por exemplo, o que o mais recente orçamento proposto pelo governo Obama diz a respeito do pagamento de juros da dívida federal; segundo as projeções, daqui uma década eles crescerão para 3,5% do PIB. Quão assustador é isso? É praticamente o mesmo gasto com juros do governo do primeiro presidente George Bush.

Por que então toda a histeria? A resposta é política.

A principal diferença entre meados do ano passado, quando encarávamos (apropriadamente) com calma os déficits, e o atual senso de pânico é que a incitação do medo do déficit se tornou uma parte chave da estratégia política republicana, realizando uma função dupla: ela arranha a imagem do presidente Barack Obama ao mesmo tempo em que mina sua agenda de políticas. E se a hipocrisia é de tirar o fôlego –políticos que votaram por reduções de impostos que arrebentaram o orçamento se passando por apóstolos da retidão fiscal, políticos satanizando as tentativas de conter os custos do Medicare (o seguro saúde público para idosos e inválidos) em um dia (painéis da morte!), depois condenam os gastos excessivos do governo no outro –mas, o que há de novo?

O problema, entretanto, é que aparentemente é difícil para muitas pessoas distinguir a diferença entre postura cínica e argumento econômico sério. E isso provoca consequências trágicas.

Pois graças à histeria do déficit, as prioridades de Washington estão todas erradas: só se fala em como cortar alguns poucos bilhões de dólares dos gastos do governo, enquanto não há disposição para tratar do desemprego em massa. As políticas estão seguindo na direção errada –e milhões de americanos pagarão o preço.

Paul Krugman

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do New York Times desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de economia em 2008.



Fonte: UOL Noticias - Colunistas