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domingo, 18 de abril de 2010

Brasil - novos cenários da economia


Cresce a preocupação com alimentação saudável e com ela os negócios do setor

Empreendimentos que quiserem apostar na tendência devem ter em mente os preconceitos que ainda existem contra a “comida de coelho”

Por Ricardo F. Santos
iStockphoto.com
A atual preocupação com alimentação saudável tem suas raízes algumas décadas atrás, quando surgiram os alimentos diet. Dênis Ribeiro, diretor de economia da Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (ABIA), conta que a difusão de informações nutricionais, cadernos de saúde e relacionamento direto entre alimentação e bem-estar fizeram surgir essa preocupação. “Os alimentos diet, inicialmente, eram direcionados a diabéticos e não tinham açúcar. Depois, evoluíram para um sentido de prevenção, a fim de evitar problemas de saúde no futuro”. 

A partir daí vieram os alimentos light, com menos calorias; os fortificados, com mais vitaminas, ferro, ômega-3 etc.; e os funcionais, que contribuem para a manutenção da saúde de diversas maneiras, reduzem colesterol, ativam funções intestinais e outros benefícios. “Só que para fazer uma alegação dessas publicamente, você precisa prová-la cientificamente perante a Anvisa, o que leva mais de ano”, afirma Ribeiro. 

Lívia Barbosa, diretora do Centro de Altos Estudos de Propaganda e Marketing da Escola Superior de Propaganda e Marketing (CAEPM-ESPM), acrescenta dois outros fatores que contribuíram para aumentar a preocupação com alimentação saudável. “Há um aumento global de doenças cardiovasculares e de obesidade, sejam ligadas ao sedentarismo ou à alimentação, e o envelhecimento da população; cada vez mais interessa às pessoas viver melhor”, afirma. Ela ressalta a centralidade que os temas saúde e comida assumiram na sociedade contemporânea. 
“Acho que é uma evolução natural: você começa a comer mais fora de casa, se houver apenas comida não saudável as pessoas começam a engordar”, diz Luís Yamanishi, diretor da Rede Viva! de alimentação saudável. Ainda de acordo com pesquisa da ECD Food Service, cerca de 83% dos brasileiros almoçam na rua. Em 1988, esse público gastava 19,7% de sua despesa total com alimentação fora de casa. Em 2010, esse índice deve ficar em torno de 27%. “As pessoas querem se sentir bem com uma comida que traga benefícios para a saúde; é uma alimentação preventiva”, afirma ele. A rede Viva! investe em um cardápio com muitas opções de saladas com temperos especiais, wraps, bebidas feitas com frutas frescas e outras combinações leves. Tudo para agradar a esse público.
Outra rede que segue a tendência saudável é a Wraps. A franquia se inspirou nos enroladinhos americanos, por sua vez importados dos burritos mexicanos, para criar lanches e refeições mais saudáveis. “Desenvolvemos wraps com ingredientes leves e sofisticados, como filé mignon, peixe, queijos light e folhas verdes”, explica Marcelo Ferraz, proprietário da rede. Depois de alguns anos, ele percebeu existir uma demanda por comida saudável mais rápida, fast food saudável. Em 2009, estava criada a Go Fresh, em que o cliente monta a própria salada, e adiciona um pão integral e um grelhado. 

A presença do grelhado é importante, segundo ele, para as pessoas não ficarem com a sensação de que comida saudável não alimenta. “Há um preconceito muito presente, principalmente masculino, de que folha não enche barriga”, diz Lívia Barbosa, da CAEPM-ESPM. Segundo ela, faz parte da cultura a sensação de que comida deve pesar no estômago, e não apenas alimentar com os nutrientes necessários. “Você não vai resolver isso oferecendo palitinhos de cenoura na hora do lanche. O brasileiro, em geral, considera indispensável a presença da carne”, afirma ela. A mudança deve ser gradual. 

Por conta dessa mentalidade é que a alimentação saudável ainda não cresceu tanto. “Se eu tivesse dinheiro para abrir cem lojas hoje, eu não o faria, porque esse mercado ainda não está muito amadurecido”, diz Marcelo Ferraz, da Wraps. De fato, na indústria de alimentação em 2008, os alimentos diet/light, fortificados e funcionais representaram apenas 8% das vendas, somando R$ 21,8 bilhões, segundo Ribeiro, da ABIA. “A pouca participação desses produtos é um problema de evolução de mercado. À medida que a população se informa mais sobre alimentos saudáveis, o mercado amadurece: o consumidor fica mais exigente e as empresas ficam mais competitivas, melhorando seu produto. Tem bastante espaço para crescer”, afirma ele. 

Outro preconceito muito latente é de que o saudável não é gostoso. “Isso é porque geralmente se associa alimento saudável à comida macrobiótica, que propõe o mínimo de intervenção no alimento e procura servir a maioria das coisas ao natural”, diz Lívia. As redes de alimentação também têm essa consciência e investem na variedade. A Salad Creations, por exemplo, diversifica os ingredientes para provar que comida saudável vai além de comer alface e cenoura. A rede foi fundada em 2004 na Flórida, nos Estados Unidos, e veio para o Brasil em 2007 com lojas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Seu grande diferencial é oferecer mais de 40 ingredientes e diferentes molhos para o cliente montar a própria salada. Prova de que a iniciativa deu certo é o faturamento da empresa, que cresce em média 30% ao ano. A rede já possui 13 lojas no Brasil, pretende abrir mais 14 em 2010 e chegar a 50 no fim de 2011. 

Não é apenas com saladas que se pode ser saudável; outro alimento de consumo crescente é o frozen yogurt. Ele é comparável ao sorvete, mas tem metade das calorias e muito menos gordura. Nos Estados Unidos, onde faz mais sucesso, representa 30% do mercado de congelados, e seu consumo cresce mais do que o do sorvete comum. Duas grandes redes que trabalham com o produto aqui no Brasil são a Yogoberry e a Yoguland. 

A Yogoberry foi fundada no final de 2007, e menos de três anos depois já possui 26 unidades abertas na região Sudeste e no Distrito Federal. O faturamento da rede cresceu 30% de 2008 para 2009, chegando a R$ 2 milhões. A Yoguland, que atua no mesmo nicho, fundada há menos de um ano, já está com seis unidades abertas na região Sul e em São Paulo, faturando em média R$ 80 mil cada loja. Ambas estão se expandindo por meio de franquias e apostam no amadurecimento do consumidor, que procura cada vez mais alternativas saudáveis na hora de se alimentar. 

O público da alimentação saudável ainda é predominantemente feminino, afirmam Rafael Soares, proprietário da Yoguland, e Marcelo Ferraz, da Wraps. Os restaurantes de comida saudável querem passar a mensagem, principalmente aos homens, de que uma refeição em seus estabelecimentos equivale a uma refeição completa. “Hoje a diferença entre homens e mulheres no nosso público é menor do que quando começamos; tentamos passar aos homens, em geral mais glutões, a mensagem de que comida saudável não deixa com fome”, afirma Ferraz. 

Não é porque existe essa tendência saudável que você deve parar tudo o que faz no seu restaurante e começar a vender alface; é só ter em mente a importância crescente que o consumidor atribui à saúde na alimentação. E não é preciso vender apenas alimentos saudáveis, há várias franquias apenas tornando seu cardápio mais leve. Só não pode ficar parado, porque essa tendência vai crescer por décadas.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Crise e mudanças: a vez da solidariedade e da sustentabilidade

28/04/2009 - 16:01:37

Democratizando as finanças

Hazel Henderson

A crise financeira gerada por Wall Street e pelos bancos globais “muito grandes para quebrar” está gerando iniciativas locais e demandas para descentralizar e democratizar o mundo financeiro.
Ao mesmo tempo, em nível global, os países que formam o G-20 exigem a democratização das estruturas no FMI e no Banco Mundial, como condição essencial para refletir as mudanças no equilíbrio das forças econômicas. Os países do G-7 e G-8 não são tão importantes agora, quando o grupo G-20, que tomou o centro das atenções.
Enquanto redes de segurança nacionais são espalhadas, através de cortes em orçamentos, a liderança local cresce, oferecendo alternativas criativas para as comunidades que desejam estabelecer economias domésticas bem mais saudáveis:
Clubes locais de permuta, como o Freecycle.com, Craigslist e LETS e “scrip currencies” (moedas alternativas) proliferam - como ocorre sempre que os bancos centrais e o Fundo Monetário Internacional falham ou aplicam as alternativas erradas que só fazem com que as coisas piorem. Algumas das mais bem sucedidas moedas complementares locais são o WIR na Suíça e o Berkshare nos Estados Unidos, com o equivalente à $2 milhões em circulação e aceita por bancos e negócios em Massachusetts. Moedas complementares similares estão equilibrando necessidades e recursos e estão desobstruindo os mercados locais na Grã Bretanha, Canadá, Austrália, Argentina, Brasil e outros países.
Empréstimos interpessoais e projetos microfinanceiros estão florescendo em muitos países. Entre muitos podemos citar o Women’s World Banking, Grameen Bank em Bangladesh, hoje duplicado em muitos países, o FINCA e o ACCION na América Latina, assim como as novíssimas versões online, incluindo o Microplace, o Kiva, como também os que emprestam no Prosper.com, nos EUA e o Zopa.com na Grã Bretanha. As cooperativas de crédito, presentes na Europa e nos Estados Unidos há um século, agora estão mais pró-ativas. Essas entidades estão satisfazendo as necessidades locais, atendendo as pessoas mais pobres e melhorando o escopo micro-financeiro e emprestando para os pequenos negócios.
As associações que reúnem pequenos bancos e negócios locais estão trabalhando uma esfera mais política, se comparadas com as cooperativas de crédito. Nos EUA, elas estão exigindo tratamento igual no TARP e TALF do governo e junto a outros fundos de ajuda que atualmente trabalham junto aos grandes bancos, cujas temerárias políticas de empréstimo acabaram por desencadear a desordem financeira atual. O Venture capital (Capital Empreendedor) e empresas de filantropia empreendedoras, incluindo a Rudolf Steiner Foundation, Acumen e as entidades dos fundadores do Ebay Pierre Omidyar e Jeffrey Skoll estão investindo em empreendimentos sociais que satisfaçam necessidades sociais e, ao mesmo tempo, visem lucros modestos. Tal capital social está criando um novo setor híbrido em diversas economias.
A Business Alliance for Local Living Economics (BALLE) é uma grande rede nos Estados Unidos da América, como também o New Voice of Business, Green America, a Social Enterprise Alliance, o Fourth Sector Network e o Business-NGO Working Group. O Entrex.net se concentra em ajudar pequenos negócios com seu Índice de Empresa Privada (Private Company Index - PCI) que hoje supera a maioria dos índices do mercado. A britânica New Economics Foundation (NEF) tem gerado iniciativas locais, como o movimento Transition Towns, assim como seu Green New Deal e indicadores alternativos para corrigir o PIB (GDP), avaliando o bem-estar e a sustentabilidade ecológica. A proposta da NEF é de salvar 11.500 postos do correio na Grã Bretanha, com a adição de funções bancárias em todos eles, com o apoio das cooperativas comerciais, pequenos negócios, grupos de interesse público e aposentados e pensionistas.
“Time banking”, uma idéia de Edgar Cahn, nos EUA (visite o site www.ethicalmarkets.tv) hoje ajuda a população local a se conectar e compartilhar serviços com o Japão, Europa e outros países. Os vizinhos se comunicam, via um “time banker” local e oferecem refeições e auxílio para indivíduos reclusos, cuidar uns dos filhos dos outros, vigiar propriedades, cortar a grama e compartilhar eletrodomésticos. O compartilhamento de veículos já se espalhou, com novas empresas como o Zip Car, nos EUA e outras semelhantes no Canadá e na Europa, onde as pessoas podem dar/pegar caronas, rapidamente, acessando seus Blackberrys e laptops.
A China hoje abriga muitas iniciativas locais, relacionadas com pequenos negócios formando redes, incluindo o Baidu.com e o Alibaba.com, como também o Qifang.com que oferece empréstimos razoáveis para mais de 25 milhões de estudantes na China. O Circle Pleasure é uma empresa privada que vende cartões, pré-pagos, para o consumidor, uma parceria com a Qifang para oferecer serviços bancários do tipo pessoa-a-pessoa, a primeira empresa privada a receber uma licença bancária do Banco Central da China. Em muitos países na África, serviços bancários por celular já decolaram. Os celulares são a base para as “phone ladies” em vilas na Índia e em Bangladesh, que alugam seus celulares para outras pessoas no vilarejo. Os fazendeiros e pescadores, nas áreas rurais, podem consultar os preços que estão sendo oferecidos nas aldeias e mercados, ao redor de seus vilarejos, usando seus celulares, para obter os melhores preços e mercados para seus produtos.
Até onde os sistemas financeiros interpessoais podem ir, ultrapassando os grandes e gananciosos bancos, desafiando eticamente Wall Street e seus aliados políticos? O caminho é longo, graças a todas as ferramentas de comunicação que hoje dispomos em todo o mundo. O uso dessas novas ferramentas para compartilhamento de informações ajuda as pessoas a se dar conta, mais uma vez, do real significado do dinheiro, ou seja: apenas uma forma de informação. Hoje é possível fazer negócios usando apenas a troca de informações. Por exemplo, em áreas rurais da Flórida, as estações de rádio têm programas onde os fazendeiros podem anunciar, por exemplo, “Eu tenho certo tempo ocioso com o meu trator e gostaria de trocar por fertilizantes ou sementes de pimenta, melão e berinjela.” O fazendeiro informa seu telefone e as trocas são feitas “fora do ar”. Similarmente, o crescimento das trocas entre os fazendeiros e da agricultura sob contrato permite que os consumidores locais comprem produtos frescos diretamente das fazendas que ficam perto de suas residências.
Todas essas soluções locais e redes de segurança, nos levam a perguntar “Como é que deixamos os grandes bancos e sistemas financeiros centralizados crescerem tanto, até se tornarem predadores das economias de vida reais que produzem a real riqueza mundial”? As populações locais, em todo o mundo, estão se dando conta que podem, simplesmente, ignorar os grandes bancos e os mercados de ações, criando esses serviços localmente. Os velhos e inchados setores financeiros devem ajustar-se, cortar seus bônus e assumir as perdas causadas por suas apostas impensadas no cassino global que eles mesmos montaram. Serviços financeiros verdadeiramente eficientes devem representar menos de 10% do PIB do país. Os mercados financeiros na Grã Bretanha e nos Estados Unidos chegaram a crescer até 25% do PIB, formando metástases com seus “engenheiros financeiros”, predadores da economia real. Agora, alunos procuram trabalho como verdadeiros engenheiros, professores, médicos e empresários.
De maneira bastante real, nossa crise não é uma crise financeira, mas uma crise de percepção. Agora começamos a ver nosso mundo de maneira diferente, longe dos retratos pintados pela mídia em geral. Vemos nossas escolhas com novos olhos. Sabemos que o dinheiro não é sinônimo de riqueza real. Nós aprendemos enquanto testemunhamos os bancos centrais imprimindo dinheiro na TV. A riqueza real é aquela gerada por pessoas produtivas, usando sabiamente os recursos da Terra. O dinheiro é uma grande invenção. Quando administrado apropriadamente, localmente, nacionalmente, globalmente ou eletronicamente é uma ferramenta útil de troca. Acumular dinheiro não é mais uma maneira confiável de armazenar valor. Estamos todos redescobrindo muitos estoques de valor em nossas próprias comunidades. Nós encontramos riqueza muito além do dinheiro. Podemos mudar nossos valores para nos conformar aos novos tempos em que vivemos e restaurar as economias de amor aos seus papéis centrais em nossas vidas.

Hazel Henderson é economista, líder mundial da plataforma Mercado Ético. Autora de vários livros, entre eles Ethical Markets: Growing the Green Economy. Co-criadora do Calvert-Henderson Quality of Life Indicators, juntamente com o Calvert Group. Participou do Comitê Organizador da conferência Beyond GDP no Parlamento Europeu (www.beyond-gdp.eu).


Fonte: Mercado Ético (http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/democratizando-as-financas/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=mercado-etico-hoje)

Crise e mudanças: a vez da solidariedade e da sustentabilidade

28/04/2009 - 16:01:37

Democratizando as finanças

Hazel Henderson

A crise financeira gerada por Wall Street e pelos bancos globais “muito grandes para quebrar” está gerando iniciativas locais e demandas para descentralizar e democratizar o mundo financeiro.
Ao mesmo tempo, em nível global, os países que formam o G-20 exigem a democratização das estruturas no FMI e no Banco Mundial, como condição essencial para refletir as mudanças no equilíbrio das forças econômicas. Os países do G-7 e G-8 não são tão importantes agora, quando o grupo G-20, que tomou o centro das atenções.
Enquanto redes de segurança nacionais são espalhadas, através de cortes em orçamentos, a liderança local cresce, oferecendo alternativas criativas para as comunidades que desejam estabelecer economias domésticas bem mais saudáveis:
Clubes locais de permuta, como o Freecycle.com, Craigslist e LETS e “scrip currencies” (moedas alternativas) proliferam - como ocorre sempre que os bancos centrais e o Fundo Monetário Internacional falham ou aplicam as alternativas erradas que só fazem com que as coisas piorem. Algumas das mais bem sucedidas moedas complementares locais são o WIR na Suíça e o Berkshare nos Estados Unidos, com o equivalente à $2 milhões em circulação e aceita por bancos e negócios em Massachusetts. Moedas complementares similares estão equilibrando necessidades e recursos e estão desobstruindo os mercados locais na Grã Bretanha, Canadá, Austrália, Argentina, Brasil e outros países.
Empréstimos interpessoais e projetos microfinanceiros estão florescendo em muitos países. Entre muitos podemos citar o Women’s World Banking, Grameen Bank em Bangladesh, hoje duplicado em muitos países, o FINCA e o ACCION na América Latina, assim como as novíssimas versões online, incluindo o Microplace, o Kiva, como também os que emprestam no Prosper.com, nos EUA e o Zopa.com na Grã Bretanha. As cooperativas de crédito, presentes na Europa e nos Estados Unidos há um século, agora estão mais pró-ativas. Essas entidades estão satisfazendo as necessidades locais, atendendo as pessoas mais pobres e melhorando o escopo micro-financeiro e emprestando para os pequenos negócios.
As associações que reúnem pequenos bancos e negócios locais estão trabalhando uma esfera mais política, se comparadas com as cooperativas de crédito. Nos EUA, elas estão exigindo tratamento igual no TARP e TALF do governo e junto a outros fundos de ajuda que atualmente trabalham junto aos grandes bancos, cujas temerárias políticas de empréstimo acabaram por desencadear a desordem financeira atual. O Venture capital (Capital Empreendedor) e empresas de filantropia empreendedoras, incluindo a Rudolf Steiner Foundation, Acumen e as entidades dos fundadores do Ebay Pierre Omidyar e Jeffrey Skoll estão investindo em empreendimentos sociais que satisfaçam necessidades sociais e, ao mesmo tempo, visem lucros modestos. Tal capital social está criando um novo setor híbrido em diversas economias.
A Business Alliance for Local Living Economics (BALLE) é uma grande rede nos Estados Unidos da América, como também o New Voice of Business, Green America, a Social Enterprise Alliance, o Fourth Sector Network e o Business-NGO Working Group. O Entrex.net se concentra em ajudar pequenos negócios com seu Índice de Empresa Privada (Private Company Index - PCI) que hoje supera a maioria dos índices do mercado. A britânica New Economics Foundation (NEF) tem gerado iniciativas locais, como o movimento Transition Towns, assim como seu Green New Deal e indicadores alternativos para corrigir o PIB (GDP), avaliando o bem-estar e a sustentabilidade ecológica. A proposta da NEF é de salvar 11.500 postos do correio na Grã Bretanha, com a adição de funções bancárias em todos eles, com o apoio das cooperativas comerciais, pequenos negócios, grupos de interesse público e aposentados e pensionistas.
“Time banking”, uma idéia de Edgar Cahn, nos EUA (visite o site www.ethicalmarkets.tv) hoje ajuda a população local a se conectar e compartilhar serviços com o Japão, Europa e outros países. Os vizinhos se comunicam, via um “time banker” local e oferecem refeições e auxílio para indivíduos reclusos, cuidar uns dos filhos dos outros, vigiar propriedades, cortar a grama e compartilhar eletrodomésticos. O compartilhamento de veículos já se espalhou, com novas empresas como o Zip Car, nos EUA e outras semelhantes no Canadá e na Europa, onde as pessoas podem dar/pegar caronas, rapidamente, acessando seus Blackberrys e laptops.
A China hoje abriga muitas iniciativas locais, relacionadas com pequenos negócios formando redes, incluindo o Baidu.com e o Alibaba.com, como também o Qifang.com que oferece empréstimos razoáveis para mais de 25 milhões de estudantes na China. O Circle Pleasure é uma empresa privada que vende cartões, pré-pagos, para o consumidor, uma parceria com a Qifang para oferecer serviços bancários do tipo pessoa-a-pessoa, a primeira empresa privada a receber uma licença bancária do Banco Central da China. Em muitos países na África, serviços bancários por celular já decolaram. Os celulares são a base para as “phone ladies” em vilas na Índia e em Bangladesh, que alugam seus celulares para outras pessoas no vilarejo. Os fazendeiros e pescadores, nas áreas rurais, podem consultar os preços que estão sendo oferecidos nas aldeias e mercados, ao redor de seus vilarejos, usando seus celulares, para obter os melhores preços e mercados para seus produtos.
Até onde os sistemas financeiros interpessoais podem ir, ultrapassando os grandes e gananciosos bancos, desafiando eticamente Wall Street e seus aliados políticos? O caminho é longo, graças a todas as ferramentas de comunicação que hoje dispomos em todo o mundo. O uso dessas novas ferramentas para compartilhamento de informações ajuda as pessoas a se dar conta, mais uma vez, do real significado do dinheiro, ou seja: apenas uma forma de informação. Hoje é possível fazer negócios usando apenas a troca de informações. Por exemplo, em áreas rurais da Flórida, as estações de rádio têm programas onde os fazendeiros podem anunciar, por exemplo, “Eu tenho certo tempo ocioso com o meu trator e gostaria de trocar por fertilizantes ou sementes de pimenta, melão e berinjela.” O fazendeiro informa seu telefone e as trocas são feitas “fora do ar”. Similarmente, o crescimento das trocas entre os fazendeiros e da agricultura sob contrato permite que os consumidores locais comprem produtos frescos diretamente das fazendas que ficam perto de suas residências.
Todas essas soluções locais e redes de segurança, nos levam a perguntar “Como é que deixamos os grandes bancos e sistemas financeiros centralizados crescerem tanto, até se tornarem predadores das economias de vida reais que produzem a real riqueza mundial”? As populações locais, em todo o mundo, estão se dando conta que podem, simplesmente, ignorar os grandes bancos e os mercados de ações, criando esses serviços localmente. Os velhos e inchados setores financeiros devem ajustar-se, cortar seus bônus e assumir as perdas causadas por suas apostas impensadas no cassino global que eles mesmos montaram. Serviços financeiros verdadeiramente eficientes devem representar menos de 10% do PIB do país. Os mercados financeiros na Grã Bretanha e nos Estados Unidos chegaram a crescer até 25% do PIB, formando metástases com seus “engenheiros financeiros”, predadores da economia real. Agora, alunos procuram trabalho como verdadeiros engenheiros, professores, médicos e empresários.
De maneira bastante real, nossa crise não é uma crise financeira, mas uma crise de percepção. Agora começamos a ver nosso mundo de maneira diferente, longe dos retratos pintados pela mídia em geral. Vemos nossas escolhas com novos olhos. Sabemos que o dinheiro não é sinônimo de riqueza real. Nós aprendemos enquanto testemunhamos os bancos centrais imprimindo dinheiro na TV. A riqueza real é aquela gerada por pessoas produtivas, usando sabiamente os recursos da Terra. O dinheiro é uma grande invenção. Quando administrado apropriadamente, localmente, nacionalmente, globalmente ou eletronicamente é uma ferramenta útil de troca. Acumular dinheiro não é mais uma maneira confiável de armazenar valor. Estamos todos redescobrindo muitos estoques de valor em nossas próprias comunidades. Nós encontramos riqueza muito além do dinheiro. Podemos mudar nossos valores para nos conformar aos novos tempos em que vivemos e restaurar as economias de amor aos seus papéis centrais em nossas vidas.

Hazel Henderson é economista, líder mundial da plataforma Mercado Ético. Autora de vários livros, entre eles Ethical Markets: Growing the Green Economy. Co-criadora do Calvert-Henderson Quality of Life Indicators, juntamente com o Calvert Group. Participou do Comitê Organizador da conferência Beyond GDP no Parlamento Europeu (http://www.beyond-gdp.eu/).

Fonte: Mercado Ético (http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/democratizando-as-financas/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=mercado-etico-hoje)