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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Orçamento e Dívidas

Educação financeira: lição para a vida

5/9/2010 Clique para Ampliar
Controle orçamentário é recurso essencial para a não proliferação de inúmeros problemas socioeconômicos

Há 35 anos, a letra da música "Pecado Capital", composta e interpretada pelo sambista carioca Paulinho da Viola, já corroborava com o pensamento de que a qualidade de vida de uma pessoa no futuro próximo dependerá (e muito) de como ela gasta seu dinheiro hoje. Os versos "dinheiro na mão é vendaval/ é vendaval/ na vida de um sonhador/ de um sonhador/ quanta gente aí se engana/ e cai da cama com toda a ilusão que sonhou/ e a grandeza se desfaz/ quando a solidão é mais/ alguém já falou" expõem, em formato de canção, o provável fim trágico de quem não possui algo básico para a sobrevivência: educação financeira.

Sem fugir do trocadilho, a canção remete a um tipo de sacrilégio (o descontrole orçamentário) bem comum na sociedade extremamente consumista em que vivemos. Para se ter uma ideia, no mês passado, só em Fortaleza, 37,6% das pessoas admitiram ter dívidas a pagar por conta da falta de gerenciamento das suas finanças. Esta foi a principal causa mencionada, à frente, inclusive, do desemprego e gastos repentinos com doenças ou prejuízos materiais, com 34,6% e 25,6%, respectivamente.

Além disso, a média anual (de janeiro a agosto) de fortalezenses sem condições de honrar seus compromissos é de 20,2%. Os dados são do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento do Comércio (IPDC), entidade ligada à Fecomércio-CE.

O fenômeno não é verificado apenas na Capital cearense, estende-se por todo o País. De acordo com um estudo realizado pela Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), com 400 consumidores distribuídos pelas principais cidades brasileiras, cerca de 37% dos entrevistados apontaram a inabilidade no uso com dinheiro o primeiro motivo para o acúmulo de dívidas. Ausência de emprego (25%), gastos inesperados (6%) vieram logo, em seguida.

Para diversos estudiosos do assunto, a educação financeira é um recurso essencial para a não proliferação de inúmeros problemas socioeconômicos que advêm da falta de controle no orçamento. Além disso, analistas da área reforçam que a própria aceleração do crescimento da economia e avidez dos consumidores - que aumentaram seu poder de compra - em consumir podem prejudicar aqueles que não estiverem preparados para esse novo cenário econômico do Brasil.

Em 2000, havia 48 milhões de correntistas ativos no País. Em apenas nove anos, esse número praticamente dobrou para 90 milhões. Também houve avanço na participação das pessoas físicas do crédito no PIB, em igual intervalo. Passou de ínfimos 3,7% para 15% em 2009. Essa evolução é boa para a economia, no entanto, também pode trazer problemas, caso não haja conscientização na hora de comprometer a renda familiar por parte dos consumidores. Nesse aspecto, o Governo Federal, em parceria com diversas instituições ligadas ao mercado financeiro, resolveu capacitar os jovens dentro do próprio ambiente escolar, com orientações para o uso do dinheiro de forma mais rentável.

Educar para poupar

No mês passado, teve início um programa experimental em cerca de 450 escolas da rede pública de ensino de estados como o Ceará, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Tocantins e Distrito Federal. A ideia do governo é repassar conhecimentos na área de finanças para 15 mil alunos, entre 15 e 17 anos.

O piloto de "Educação Financeira na Escola" é divido em três módulos, e deve ser concluído no fim de 2011. A pretensão do governo é de ampliar, posteriormente, a ação para 200 mil instituições educacionais, envolvendo não só o ensino médio, mas também o para aqueles do ensino fundamental. Culturalmente, no Brasil, essas noções sempre foram repassadas pelos próprios pais, muitas vezes, de forma inadequada.

Em outras ocasiões, o aprendizado é praticamente autodidata e se dá mediante as circunstâncias da vida, de forma, por assim dizer, completamente experimental.

O que é uma novidade para os brasileiros, há décadas é feito nos colégios dos Estados Unidos e de alguns países da Europa. O objetivo de se levar o tema para as instituições educacionais é auxiliar o estudantes com práticas e conceitos financeiros para se evitar, no futuro, o desarranjo das finanças na família. 

ILO SANTIAGO JR.
REPÓRTER

domingo, 21 de março de 2010

O risco do endividamento do brasileiro

Estatísticas do Banco Central mostram que, nos últimos cinco anos, o número de brasileiros com dívidas superiores a R$ 5 mil passou de 10 milhões para 23 milhões

Por Ricardo Loureiro

Estatísticas do Banco Central mostram que, nos últimos cinco anos, o número de brasileiros com dívidas superiores a R$ 5 mil passou de 10 milhões para 23 milhões. Este aumento do endividamento é coerente com a evolução da relação crédito/PIB, que era de 28,1% em 2005, fechou 2009 em 45% e a previsão para 2010 é que alcance 50%, ainda pequena na comparação internacional. A maior oferta de recursos, sobretudo para o crédito imobiliário, veículos, cartão de crédito e consignado justificam o desempenho verificado.

O fato de ter cada vez mais pessoas usufruindo do crédito é muito positivo, porque se traduz em melhor qualidade de vida, aquisição da casa própria, educação e realização pessoal e familiar. Mais, torna o Brasil o sétimo principal mercado consumidor do planeta, com a perspectiva de, em breve, ser o quinto. É por conta do crédito que o país é o segundo mercado mundial em aquisição de forno microondas, o quinto em computadores pessoais, o sexto em números de passageiros de cruzeiros marítimos, entre outros destaques.

Para a economia, o crédito promove um círculo virtuoso, que começa no financiamento do consumo e daí para a produção, gerando empregos, ampliando a renda, com disponibilidade para a poupança e, novamente, para o consumo, resultando no crescimento econômico.

No entanto, essa dinâmica do crédito só é possível com o risco dimensionado e bem gerenciado, fatores que promovem a qualidade do crédito. No caso oposto, em que o risco não é mensurado e não há sua gerência eficaz, a cobrança de juros elevados é um repasse da expectativa de perda futura às novas transações, em que o bom pagador paga pelo mau, independentemente de sua reputação creditícia. Dessa forma, os juros funcionam como um seguro financeiro contra a inadimplência e, no final, quem paga essa conta são os bons pagadores, que acabam tendo acesso a um crédito cada vez mais caro.

A atual metodologia de concessão de crédito, baseada nas informações negativas, é imperfeita, ultrapassada e não está em consonância com a sofisticação financeira do mercado brasileiro. Para ilustrar o risco que se assume diariamente no crédito, as estatísticas oficiais mostram os dados do sistema bancário e não se sabe o quanto um cidadão tem de dívidas no comércio, em serviços etc. Assim, muitos consumidores podem ter os R$ 5 mil dentro de seu limite de crédito. Outros, porém, já estão superendividados e com alta probabilidade de inadimplência. Como os concedentes não têm como diferenciá-los, dá-se mais crédito a estes consumidores endividados, tornando sua condição pessoal mais difícil e ampliando o risco nos negócios.

A ruptura do presente modelo, genérico e impreciso de avaliação do risco é necessária e urgente. A implantação do cadastro positivo é determinante, porque leva a apuração do risco à esfera individual. Como modelo estatístico de apoio à decisão de crédito, o cadastro positivo é abrangente ao considerar a posição de todos os compromissos assumidos pelo consumidor, em todos os setores econômicos. A partir dos hábitos de pagamento, é conhecido o risco individual, que abre espaço para a prática de juros individualizados. Com a composição dos riscos individuais se tem o risco coletivo.

É interessante notar que, em grande parte dos casos, os países que adotaram o cadastro positivo migraram do sistema negativo de informações de crédito. Algumas economias partiram para o positivo numa situação extrema, no pós-crise de uma inadimplência generalizada, como Hong Kong, Coréia do Sul e Tailândia. Outros tiveram o positivo por meio de um ato legal. Como se vê, a decisão pelo cadastro positivo pode ser por diversos motivos. O mais razoável é que seja por um processo evolutivo.

Para os negócios, o cadastro positivo é uma ferramenta única, que amplia a confiança e a segurança nas transações, aumentando a rentabilidade das empresas.

Do lado do consumidor, diferentemente do que acontece hoje, onde ser bom ou mau pagador tanto faz, porque se pagam juros elevados de qualquer maneira, com o cadastro positivo o consumidor se envolve com sua reputação no crédito, que pode lhe reverter em empréstimos e financiamentos mais baratos. O cidadão percebe que há uma grande vantagem em ser bom pagador. O superendividamento desaparece, porque quem concede crédito conhece a posição tomada do consumidor e este cuida de sua reputação creditícia. Fica para trás o modelo injusto de proteger e criar referência no inadimplente.

Com risco melhor dimensionado e consumidor financeiramente responsável há redução dos juros individuais e sistêmicos, em benefício da sociedade. Com juros mais baixos, há mais investimentos produtivos. Além disso, segurança e transparência no crédito são fatores de atração de investimentos externos. Por isso tudo, o cadastro positivo é praticado nas economias mais desenvolvidas do mundo e em mais uma centena de países.

Nessa direção, o crescente endividamento do brasileiro, sem o cadastro positivo, com 23 milhões de pessoas devendo mais de R$ 5 mil pode ser uma boa notícia ou não, que só se saberá no futuro próximo.

Ricardo Loureiro - Presidente da Serasa Experian

FONTE: www.administradores.com.br