sábado, 15 de outubro de 2011

15/10: Dia do Consumo Consciente



CIDADANIA



15/10: Dia do Consumo Consciente

A forma como cada um de nós consome bens e serviços impacta, diretamente, o meio ambiente e, ainda, afeta o bem-estar da nossa comunidade. Que tal aproveitar o Dia do Consumo Consciente, instituído em 15/10 pelo Ministério do Meio Ambiente, para repensar os seus hábitos de consumo? Aproveite e confira dez dicas supersimples para começar a mudar de postura


Débora Spitzcovsky
Planeta Sustentável - 14/10/2011



Em 1995, a ONU definiu, em relatório oficial da Comissão de Desenvolvimento Sustentável, que consumo sustentável é o ato de "usar serviços e produtos que respondem às nossas necessidades básicas e trazem a melhoria da qualidade de vida, ao mesmo tempo em que reduzem o uso de recursos naturais e materiais tóxicos, a produção de lixo e as emissões de poluentes" e ainda alertou: "Se continuarmos poluindo, desperdiçando matérias-primas e causando desequilíbrios fatais ao meio ambiente, a partir da forma como consumimos, nossos descendentes não sobreviverão". 

Mais de 15 anos após essa declaração, reflita um pouco a respeito da sua postura enquanto consumidor: você está, realmente, consumindo apenas o necessário ou tem sua parcela de culpa na escassez de recursos naturais e no aumento do lixo e da emissão de poluentes no planeta? 

Neste sábado, 15/10, comemora-se em todo o Brasil o Dia do Consumidor Consciente. A data foi instituída, em 2009, pelo Ministério do Meio Ambiente, com a intenção de conscientizar os brasileiros a respeito dos problemas socioeconômicos, ambientais e políticos que estamos causando no país por conta dos padrões de produção e consumo insustentáveis que adotamos. Então, que tal aproveitar a data para repensar seus hábitos e mudar de postura? Para ajudar, confira abaixo dez dicas de consumo consciente do Instituto Akatu - ONG brasileira, criada em 2011, especializada no tema.


1- PLANEJE SUAS COMPRAS Um terço dos alimentos perecíveis que compramos no supermercado vão direto para o lixo. A atitude, além de gerar um desperdício de R$ 1 milhão de reais ao longo da vida, aumenta a produção de resíduos sólidos. No Brasil, o lixo que produzimos anualmente é suficiente para construir uma muralha de 4 metros de altura ao longo de todas as praias brasileiras. A melhor maneira de evitar tanto desperdício é planejar nossas compras e avaliar, antes de sair de casa, o que realmente precisamos. 
2- RECICLE E REAPROVEITE Cada brasileiro gera, do berço ao túmulo, cerca de 25 toneladas de lixo, mas boa parte desses resíduos não precisa ter a lixeira como destino final: muitas vezes, o que consideramos lixo pode ser reaproveitado ou reciclado. Basta se informar a respeito do assunto e mudar a mentalidade. Além de contribuir para a redução da produção de resíduos, ainda ajudamos a Prefeitura a economizar nos gastos para coleta e tratamento de lixo - e esse dinheiro pode ser aplicado em melhorias para outras áreas, como saúde e educação. 
3- RECUSE SACOLAS PLÁSTICAS Cada brasileiro descarta, por ano, cerca de 75 sacolas plásticas. Se juntarmos todas as sacolinhas que foram jogadas fora pela população do país nos últimos 12 anos, é possível formar uma pilha de 700 km de altura - quase a distância entre São Paulo e Florianópolis. Cada um desses sacos plásticos leva 400 anos para desaparecer e, ainda, atrapalha a decomposição do resto do lixo que está no aterro. Por isso, opte por sacolas retornáveis quando for às compras.
4- ECONOMIZE ÁGUA Ninguém está pedindo para você deixar de usar o recurso, mas sim para usá-lo com consciência. Na hora de escovar os dentes, por exemplo, não custa nada fechar a torneira quando não estiver usando a água. Se todos os brasileiros adotarem essa postura, a água economizada em um mês equivalerá a toda a água que cai das Cataratas do Iguaçu durante um dia e meio. Além de evitar o desperdício do recurso, ainda dá para economizar na conta do fim do mês. 
5- NÃO JOGUE O ÓLEO DE COZINHA NA PIA Ao jogar um litro de óleo de cozinha pelo ralo da pia você está contribuindo para a contaminação de até 25 mil litros de água - sem contar que está correndo o risco de provocar entupimentos no encanamento de casa ou na rede de esgoto. A melhor maneira de se desfazer do óleo de cozinha é colocá-lo em garrafas PET e entregá-las para reciclagem em entidades especializadas. 
6- DÊ UM DESTINO CORRETO AO LIXO ELETRÔNICO Celulares, TVs, CDs, computadores, micro-ondas, câmeras digitais, MP3s e tantos outros artigos eletrônicos podem contaminar o solo e os lençóis freáticos, se descartados no lixo comum. Se os produtos ainda estiverem funcionando, procure doá-los, caso contrário, descarte em pontos de coleta de lixo eletrônico. 
7- COMPRE MADEIRA CERTIFICADA Cerca de 70% da madeira retirada, ilegalmente, da Amazônia fica no Brasil e é utilizada, principalmente, pelos setores moveleiro e da construção civil. A maneira mais eficaz de quebrar esse ciclo é parar de comprar madeira proveniente do desmatamento. Portanto, exija madeira certificada na hora de construir e decorar - de quebra, você ainda contribui para a redução do aquecimento global. 
8- CARNE, SÓ DE ORIGEM LEGAL A pecuária é outra grande responsável pelo desmatamento da Amazônia. Atualmente, a criação de gado é a atividade que mais contribui para o aquecimento global no país, sendo responsável por mais de 60% das emissões brasileiras de gases causadores do efeito estufa. Por isso, dê preferência a supermercados e açougues que informam a origem da carne que comercializam e garantem que ela não é proveniente de áreas desmatadas. 
9- OPTE POR PRODUTOS LOCAIS Produtos fabricados na região em que você mora percorrem uma distância menor até o supermercado e, portanto, são responsáveis por menos emissões de CO2. Além disso, frutas, verduras e legumes chegam ao destino final mais frescos para consumo. 
10- DESLIGUE O COMPUTADOR Se, apenas, 1% dos brasileiros desligar o PC, todos os dias, só na hora do almoço, em um ano evitaremos a emissão de carbono equivalente a 80 mil carros, movidos a gasolina, viajando entre São Paulo e Rio de Janeiro. Não custa nada desligar o aparelho não só na hora do almoço, mas quando você se afastar por mais de 15 minutos para realizar outra atividade, certo?


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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Série de reportagens mostra a atual realidade na Região Nordeste - Parte 2



Edição do dia 13/10/2011
13/10/2011 14h37 - Atualizado em 13/10/2011 14h43

Nordeste oferece vagas de emprego e atrai profissionais de outros estados

Segunda reportagem da série "Isso é Nordeste" mostra que estaleiros, petroquímicas e siderúrgicas começam a se instalar na região. Número de universidades também cresceu e atrai professores e universitários.


Aline OliveiraSão Gonçalo do Amarante, CE

A área do Nordeste brasileiro representa o tamanho de França, Espanha, Alemanha e Suíça juntos. A região, que abrange 19% do território nacional e comporta quase 30% da população brasileira, quase sempre obrigou os moradores a buscar trabalho em outros estados, mas hoje oferece oportunidades de emprego. Os próprios nordestinos que sairam para trabalhar em outros lugares começam a voltar para casa.
"No nosso caso, professores mais jovens, que pegam uma situação no Sul de mercado mais saturado, mais concorrido, é uma oportunidade excelente para começar" - Eduardo da Cunha, professor universitário, gaúcho.
"Meu salário é 50% maior do que o que eu recebia lá nas outras obras no Mato Grosso. Quanto ao salário eu não tenho do que reclamar não" - Elton Gomes Barreto, especialista em perfuração e detonação, matogrossense.
"Do ponto de vista da dimensão cultural e do desenvolvimento econômico da região foi uma grande surpresa, sem dúvida alguma" - Joselina da Silva, socióloga, carioca.
"Cheguei aqui e vi uma região muito desenvolvida, com muito verde e nada de terra rachada" - Júlia Letícia Sciamana, universitária, paulista.
Estaleiros, petroquímicas e siderúrgicas. Esse tipo de indústria, que até então não existia no Nordeste, começa a se instalar na região e os portos ganham outro perfil e se expandem. No Ceará, por exemplo, as contratações vão desde operários da contrução civil até engenheiros altamente qualificados. "Você vai ter oportunidade para trabalhadores menos capacitados e vai ter também oportunidades que vão exigir mão de obra mais qualificada”, afirma o economista Eduardo Sarquiz.
Um dos maiores empreendimentos é a Transnordestina, via férrea que se espalha pelo sertão de Pernambuco, Ceará e vai até o Piauí. Fábio Tanaka trocou o cargo de executivo de uma multinacional em São Paulo para administrar uma indústria de geração de energia em construção no porto do Pecém, no Ceará. "Hoje é um dos principais empreendimentos privados em andamento no país e atrai grandes profissionais. A gente tem uma equipe altamente qualificada, vinda de várias localidades, inclusive de outros países", diz o executivo.
O crescimento econômico está mudando também a o perfil das cidades. Juazeiro do Norte, a 500 quilômetros de Fortaleza, por exemplo, cresceu tanto que os moradores ainda estão se acostumando. "Está como cidade grande, está parecendo capital", conta Maria Jeremias, professora. Agora é de VLT, o chamado veículo leve sobre trilhos, que muita gente vai e vem.
Na Bahia, a população do município de Luis Eduardo Magalhães passou de 18 mil habitantes para 60 mil nos últimos dez anos. "Hoje, nós temos faculdades, temos uma estrutura melhor para os nossos filhos, de lazer, inclusive de cultura", conta a pedagoga Bernardete Clain.
Em todo o Nordeste, em cinco anos, o número de universidades públicas e privadas cresceu 25%, o que atraiu professores e estudantes de outras partes do Brasil. “Estou gostando do lugar, vim para seguir carreira aqui mesmo, gosto de morar no interior, não tem problema, gosto da região para morar e para trabalhar é ótimo", afirma Eduardo Vivian da Cunha, professor universitário.
Universidades públicas também migraram para o interior. Foi assim que Campina Grande, na Paraíba, virou reduto de jovens estudantes que transformaram a cidade em um importante pólo tecnológico. "A educação é o começo de tudo. Você vai agregar valor a essa economia local, vai dar uma perspectiva real a esse aluno, que ele vai encontrar um mercado de trabalho adequado e vai poder contribuir com essa região", analisa a economista Suely Chacon.
Quem foi embora no passado, por falta de qualificação profissional e de emprego, também está voltando para casa. "Eu posso garantir que hoje não tenho inveja de quem está ganhando lá no Sul. Eu ganho aqui 50% melhor do que eu estava ganhando lá, a três mil quilômetros, longe de casa", garante o cearense Aurélio de Matos Carneiro, motorista.
O assistente de encarregado Raimundo Nilmar Pinheiro ficou 19 anos em São Paulo. Foi pedreiro e operário. Agora, coordena uma equipe no porto de Pecem, no Ceará: "Lá fora, a gente já via que o Nordeste cresceu muito, portanto, foi por isso o meu retorno. Meu plano é de crescer no Nordeste e continuar aqui até o fim da minha vida”.

Série de reportagens mostra a atual realidade na Região Nordeste - Parte 1


Edição do dia 12/10/2011
12/10/2011 14h21 - Atualizado em 12/10/2011 14h22

Jornal Hoje estreia série de reportagens sobre o Nordeste

Região que já foi considerada a mais pobre do país, agora se destaca com crescimento econômico acima da média nacional.

A primeira reportagem destaca o espírito empreendedor do nordestino, brasileiros que souberam enxergar uma boa oportunidade e se transformaram em pequenos empresários.
“Há três anos tenho esse carrinho de pipoca, com ele eu consegui comprar o meu terreno e pretendo crescer, fazendo a minha casa e outros e outros sonhos que eu quero” - Selma Costa, pipoqueira de Aracaju.
“Eu comecei vendendo geladinho, ai depois eu comecei a fazer uns doces pra encomenda, o que sobrava a vizinhança comprava, foi crescendo aos poucos, hoje eu tenho o Cantinho da Val que eu forneço salgado frito na hora” - Valdeci da Conceição, comerciante de Salvador.
“Eu sempre morei de aluguel e agora graças a deus eu tenho meu próprio negócio e estou construindo minha casa, graças a deus tá dando certo” - Francisco Roberto Amaral Teixeira, dono de mercadinho em Fortaleza.
“Hoje eu montei meu próprio salão, os meus filhos estão estudando em escolas particulares. Eu mudei de bairro e hoje tenho investido em coisas grandes e maiores pensando em nosso futuro” - Lice Lima, cabeleireira de Bacabal, Maranhão.
De olho no futuro, eles já mudaram o presente. De cada dez brasileiros que ingressaram na nova classe C, três são do Nordeste. A classe média é a principal responsável pelo novo retrato da região. "Eu comecei num quartinho pequenininho e depois fui crescendo, crescendo e hoje em dia eu posso dizer que tenho um grande restaurante", afirma Maria de Jesus Silva Barros, dona de restaurante.
Em sete anos a renda das famílias nordestinas aumentou 50%. "Os programas de transferência têm uma contribuição importante nesse segmento, mas o que é mais importante é a renda do trabalho, são as pessoas terem mais emprego, serem mais empreendedoras", declara Flávio Ataliba, presidente do Ipece.
“A gente é comerciante, toda a família, e através da pequena mercearia que a gente tem hoje, a gente consegue nossos bens”, diz Claudio Vieira Costa, de Bacabal, MA.
Divina não só viu o otimismo e a renda dos vizinhos aumentarem, viu também uma oportunidade para virar uma empreendedora, na periferia de Fortaleza, uma história que começou com três peças íntimas e uma única cliente. "Ela gostou, quis comprar, e levou as três", conta Divina Silva, empresária.

Ter boas idéias e vontade de trabalhar é importante, mas para começar um negócio é preciso também ter dinheiro. Divina conseguiu um crédito no banco. Começou um empréstimo de trezentos reais e soube aplicar tão bem que, três anos depois, a costureira já era uma micro-empresária.

Na empresa de Divina, aumentam as vendas e o número de funcionárias: já são cinco com carteira assinada. No Nordeste, a renda dos funcionários legalizados aumentou 53%.
O que impulsiona parte desses sonhos é o micro-crédito "Se os juros forem altos, nada feito, porque se tiver juros como é que a pessoa ganha para poder vender?”, diz. Este ano, só um banco público ganhou 264 mil novos clientes.

Tanta disposição para o consumo levou o empresário Honório Pinheiro da capital para o sertão. Ele montou quatro supermercados em cidades do interior. "A experiência do interior foi exitosa, há 10 anos nós começamos e foi tão bom que os concorrentes foram todos para lá”, conta.
Uma pesquisa mostra que o consumo de alimentos e bebidas na nova classe C aumentou cinco vezes nos últimos oito anos. O carrinho ficou mais sortido. "Essa história de iogurte, queijinho sem sal para fazer a dieta, a gente não tinha, mas agora tem", diz Maria Lili Alves Marques, 76 anos aposentada.
E tem muito mais. Valdeci da Conceição, de Salvador, conta que já consegui comprar seu carro. O comerciante Claudio Vieira Costa, de Bacabal, no Maranhão, já consegui comprar a moto e o carro. Um veículo na garagem já é realidade para mais da metade da nova classe média nordestina.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Crise contemporânea do Capitalismo


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Origens da crise e perspectivas futuras

Por Carlos da Silva Costa
Quatro anos após o início da maior crise financeira desde a Grande Depressão, a estabilidade financeira mundial ainda está por ser garantida e muitos desafios políticos continuam a ser enfrentados. De fato:
- A recuperação mundial não está avançando a um ritmo equilibrado;
- Persistem grandes desequilíbrios no mundo;
- Surgiram amplas preocupações quanto à sustentabilidade da dívida pública;
- Vínculos entre os balanços patrimoniais frágeis, de governos e bancos, produziram novas tensões nos mercados financeiros, afetando particularmente a área do euro.
O que aconteceu? As causas da crise financeira mundial são, agora, bem compreendidas.
A partir de meados dos anos 1990, teve início uma década de crescimento econômico sustentado e baixa inflação - um período que tornou-se conhecido como a "Grande Moderação". A globalização favoreceu condições macroeconômicas benignas, criando a ilusão de um novo paradigma na economia. Baixa inflação nos preços ao consumidor aliviou a pressão sobre os bancos centrais - especialmente o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) - no sentido de apertar a política monetária e frear o crescimento do crédito.
Retrospectivamente, fica claro que teria sido mais do que justificado adotar uma "visão prudente"
Ao invés de se traduzir em inflação nos preços ao consumidor, a expansão do crédito decorrente de ampla liquidez e juros baixos resultaram em rápida alta nos preços dos ativos. Em particular, os juros muito baixos nos EUA promoveram rápida expansão do crédito ao consumidor e do financiamento habitacional, alimentando uma bolha imobiliária generalizada.
Falhas de regulamentação e fiscalização ampliaram esses desdobramentos. Na verdade, diversos fatores relevantes explicam a magnitude da bolha financeira e as instabilidades subsequentes:
- Ampla desregulamentação financeira;
- Componentes pró-cíclicos em arcabouços regulatórios;
- E, por fim, a falta de transparência nos mercados.
A acumulação de desequilíbrios na economia americana espelhou o acúmulo de grandes desequilíbrios no mundo. Superávits em conta corrente em países emergentes, principalmente na China, foram investidos em títulos do governo dos EUA e em outros ativos de baixo risco, ampliando mais a liquidez e deprimindo os rendimentos. Isso tem incentivado os investidores a buscar rendimentos mais altos em ativos de maior risco.
Na Europa, o mais significativo foi o surgimento da União Econômica e Monetária (UME), cuja perspectiva de criação fomentou uma rápida convergência das taxas de juro para os níveis vigentes na Alemanha, a partir de meados dos anos 1990.
Os paises aspirantes a membros da zona do euro - especialmente aqueles com piores históricos de estabilidade - beneficiaram-se, inicialmente, de um ciclo virtuoso entre convergência nominal e a perspectiva de participação. Os esforços de consolidação fiscal e inflação mais baixa elevaram a probabilidade de participação na zona do euro (atendendo os critérios de Maastricht). A maior probabilidade de adesão facilitou a estabilidade do câmbio, a convergência dos juros para os níveis mais baixos e a melhoria dos balanços orçamentários.
Resta ver se o novo arcabouço de vigilância vai garantir o bom funcionamento da região
As ordens de grandeza foram notáveis: os juros de longo prazo em Portugal caíram de mais de 12%, em abril de 1995, para cerca de 4% em dezembro de 1998, às vésperas de o país adotar o euro. As despesas com juros caíram para menos da metade, passando de 5,6% do PIB em 1995 para 2,4% em 2005. Evoluções similares ocorreram em outros países, como Itália, Irlanda, Espanha e, com algum atraso, a Grécia.
O alívio nas restrições de liquidez resultou em grande aquecimento no crédito ao setor privado e em menor poupança. O consumo de bens duráveis pelas famílias e os investimentos em habitação dispararam e a alavancagem das empresas aumentou significativamente. Grandes déficits em conta corrente surgiram como contrapartida ao crescimento dos gastos privados.
Esse "novo mundo" de juros baixos e financiamento abundante parecia oferecer um almoço grátis aos países convergentes. Mas surgiram vários desequilíbrios, que assumiram diferentes formas:
- Em países como Portugal ou Grécia, os desequilíbrios fiscais tornaram-se um grande problema. A poupança decorrente de juros mais baixos e de receitas resultantes do crescimento acelerado foi usada para financiar políticas expansionistas. Quando a convergência dos juros foi concluída e o impacto inicial do euro sobre o crescimento desapareceu, ficou evidente a fragilidade das políticas fiscais. Além disso, gargalos estruturais decorrentes de falta de competição e o peso excessivo do setor público contribuíram para a expansão excessiva dos bens não comercializáveis, prejudicando a competitividade e agravando desequilíbrios externos.
- Em países como a Espanha e a Irlanda, as políticas fiscais foram mais prudentes. Mas surgiu uma bolha no mercado imobiliário. Na Irlanda, o setor financeiro inchou.
À medida que a crise financeira começou a manifestar-se, em meados de 2007, e depois progrediu até transformar-se em recessão mundial, a reação das autoridades econômicas em todo o mundo foi disponibilizar enorme volumes de liquidez pelos bancos centrais, paralelamente a uma enorme expansão fiscal, além de os governos terem assumido ou garantido as dívidas dos bancos. O objetivo era atenuar o impacto da crise sobre a produção e o emprego e evitar uma crise generalizada que poderia assemelhar-se à de 1929. A consequência foi uma deterioração no balanço patrimonial do setor público.
As preocupações com a sustentabilidade, especialmente n os países onde a margem de manobra era mais limitada, nos levaram à terceira fase da crise, onde estamos agora: a crise da dívida soberana, que até agora afetou principalmente as economias periféricas da área do euro.
Como explicar o que aconteceu? Como déficits em conta corrente elevados persistiram em alguns países da área do euro sem questionamentos?
Em primeiro lugar, não se pode ignorar que a zona do euro teve um grande impacto sobre a formação de expectativas. Muitos economistas e autoridades afirmavam que os desequilíbrios em conta corrente eram o resultado esperado de uma integração mais profunda entre os países com diferentes níveis de desenvolvimento econômico. Em uma união monetária, um déficit em conta corrente que reflita o balanço financeiro do setor privado não seria motivo de preocupação. A monitoração do risco de crédito asseguraria adequada determinação do preço de riscos e não haveria desequilíbrio macroeconômico.
Essa visão encontrou apoio em previsões na teoria ortodoxa. Em um modelo neoclássico de crescimento, a queda de juros causada pela redução do prêmio de risco em um país resulta em maior consumo e estimula o investimento. A perturbação inicial também causa o aumento dos preços de bens não comercializáveis (apreciação do câmbio real) e aumento dos salários reais.
O crescimento potencial elevado não se concretizou, pois o boom de investimentos concentrou-se, em grande parte, em investimentos não produtivos (construção civil) e logo foi revertido.
Com efeito, uma explicação alternativa para o ajuste dos países convergentes à UME pode ser obtida com base em um modelo macroeconômico intertemporal clássico. Esse modelo ilustra a importância dos efeitos de substituição intertemporal no consumo que dominou a UME nos primeiros anos. Também nesse modelo, o processo de ajuste, que acaba sendo deflagrado pelo acumulo de dívida externa, é lento e benigno.
De uma perspectiva de política econômica, os pressupostos subjacentes à abordagem benigna revelaram-se irrealistas e ilusórios. Com efeito, o arcabouço conceitual não contempla realidades fundamentais da vida - como complexos mecanismos de formação de expectativas, a possibilidade de inadimplência, a ausência de fricções nos mercados de produtos e de mão de obra ou comportamento fiscal imprudente.
Expectativas otimistas sobre perspectivas de crescimento futuro e miopia, fracas instituições nacionais e fricções reais e financeiras deveriam ter se constituído para intervenção na política econômica visando atenuar o padrão de "expansão acelerada seguida de colapso brusco" decorrente da integração monetária.
Os amortecedores, que levariam ao menor endividamento do setor público e de maior solidez de capital no setor bancário, teriam colocado as economias convergentes em posição mais sólida para enfrentar a crise financeira. Além disso, uma abordagem mais ambiciosa e coerente a uma reforma estrutural teria deixado essas economias melhor equipadas para enfrentar os desafios da globalização e do envelhecimento populacional. Deveríamos inferir que somente a política interna e falhas institucionais devem ser responsabilizadas pela atual situação na Europa?
A resposta é negativa. Embora políticas internas inadequadas e irresponsáveis expliquem onde estamos, é preciso reconhecer que uma arquitetura incompleta para a zona do euro é fundamental para explicar a situação atual.
O modelo de governança econômica da zona do euro repousa em quatro princípios fundamentais:
- Soberania fiscal: os Estados membros mantêm responsabilidade por sua política fiscal, sujeita a regras e procedimentos comuns;
- Inadimplência desconsiderada: a possibilidade de reestruturação controlada de dívida soberana não foi considerada no modelo;
- Socorro desconsiderado: não foi estabelecido nenhum mecanismo de gestão de crises;
- Saída desconsiderada: não é contemplada a possibilidade de um membro abandonar o euro.
Os responsáveis pela elaboração do Tratado de Maastricht estavam conscientes de que não poderíamos depender das forças de mercado para assegurar disciplina e a correção de desequilíbrios. Episódios históricos mostraram que os mercados financeiros tendem a ser lentos e frouxos na penalização de prodigalidade em tempos normais, e podem, repentinamente, virar e deflagrar movimentos exagerados durante crises.
A fim de conter o risco moral e prevenir turbulências, o Pacto de Estabilidade e Crescimento foi acordado como um complemento à arquitetura de Maastricht. O Pacto estabelece regras e procedimentos orçamentários para reforçar a disciplina fiscal em nível nacional. Com o Pacto, pretendeu-se evitar erros graves de política fiscal mediante monitoração e pressão dos Estados-membros, bem como por meio de ameaças de sanções.
No entanto, a implementação do Pacto foi frouxa nos primeiros anos da UME. Tensões surgiram no início de 2000, e em novembro de 2003, quando ações deveriam ter sido tomadas contra a França e a Alemanha, o Conselho Ecofin decidiu não agir, prevalecendo sobre a Comissão Europeia. Essa indisposição para aplicar as regras foi um "pecado mortal": um recado foi enviado aos membros da área do euro, dizendo que o Pacto "não era para valer".
De modo mais geral, eu diria que a débil governança econômica na área do euro teve três consequências importantes:
- Primeiro, políticas fiscais domésticas inadequadas foram toleradas, resultando em situações orçamentárias insustentáveis em alguns países e tensões na condução da política monetária única;
- Segundo, atenção insuficiente a perdas de competitividade e ao acúmulo de desequilíbrios em conta corrente na zona euro;
- Terceiro, e provavelmente mais importante, a correlação entre a capacidade do setor financeiro e dos Estados soberanos de obterem financiamento foi, em larga medida, ignorada.
Por um lado, o mercado para captação de recursos financeiros estava extremamente integrado, na área do euro (isto é, o mercado financeiro de curto prazo e o mercado de dívida soberana); por outro lado, o controle proprietário de bancos e a concessão de crédito pelos bancos continuaram a ser operados em ´âmbito nacional. O fato de o sistema bancário e os Estados soberanos compartilharem as mesmas fronteiras implicava que sua capacidade de tomar empréstimos apoiava-se no mesmo conjunto de fundamentos. Essa interdependência acabou por ser uma importante fonte de risco macrossistêmico na área do euro.
A crise da dívida soberana trouxe para o primeiro plano as falhas na governança econômica da área do euro e expôs a vulnerabilidade dos Estados da área do euro a mudanças na percepção de riscos soberanos nos mercados.
Com efeito, quando um país tem a sua moeda em livre flutuação, uma perda de confiança do mercado traduz-se em uma onda de vendas de títulos, que dispara rendimentos mais elevados e desvalorização cambial, deixando praticamente não afetadas as ofertas monetária e de crédito ao setor privado. Além disso, o banco central nacional funciona como um emprestador de última instância.
Por isso, os investidores não podem precipitar uma crise de liquidez capaz de impor ao país uma posição inadimplente.
Em contraste, para um país pertencente a uma união monetária, uma perda de confiança e a resultante onda de vendas de seus títulos implica não apenas rendimentos mais elevados, mas uma escassez de liquidez, o que pode facilmente transformar-se em problemas de solvência.
A administração de crises pela UE não foi eficaz no sentido de restaurar a confiança do mercado. Embora medidas rápidas e resolutas tenham sido tomadas para fortalecer a arquitetura financeira da UE, a União tem ficado correndo "atrás da curva" no enfrentamento da crise da dívida soberana. Como resultado, o BCE tem sido confrontado com a inevitabilidade de desempenhar um papel corretivo, testando os limites de sua missão.
O que precisamos fazer? Conforme mencionado, as raízes da crise, tanto da crise financeira mundial como de suas ramificações na área do euro, são agora compreendidas.
A questão a considerar, agora, é o que fazer. Medidas devem ser tomadas em nível nacional como no nível da UE. Para serem bem sucedidas, as medidas precisam ser coerentes, tanto no que diz respeito a sua arquitetura como ao momento inaugural de sua vigência.
Em nível nacional, é claro que a prioridade máxima deve ser a restauração da sustentabilidade da dívida pública, aumentando a poupança doméstica e melhorando crescimento potencial nos países impactados pela crise. Essas são as condições para estabilizar a dívida externa e colocá-la numa trajetória descendente. Esses objetivos estão no cerne do programa de assistência financeira recentemente aprovado para Portugal.
Um novo modelo de governança econômica é necessário para assegurar disciplina fiscal, evitar perdas sustentadas de competitividade e estimular a estabilidade financeira. Para esse fim, em outubro de 2010 o Conselho Europeu aprovou as propostas apresentadas por uma força-tarefa especial, coordenada pelo presidente Van Rumpuy, para um novo modelo de governança econômica, que envolverá:
- Um Pacto de Estabilidade e Crescimento reformado, visando melhorar a supervisão das políticas fiscais e aplicar as medidas coercitivas com maior coerência e antecipação;
- Novas disposições destinadas a reforçar arcabouços orçamentários nacionais; e
- Um novo mecanismo de vigilância de desequilíbrios macroeconômicos.
O pacote legislativo que estabelecerá o novo modelo de governança econômica está sendo negociado entre o Conselho e o Parlamento Europeu.
O "Euro Pact +", acordado em março pelos Estados membros da zona do euro e por outros seis países da UE, visa reforçar a coordenação de políticas econômicas. O Pacto concentra-se nas áreas abrangidas por competências nacionais que são fundamentais para melhorar a competitividade e evitar desequilíbrios potencialmente perturbadores.
Resta ver se o novo arcabouço de vigilância que será adotado será suficiente para assegurar o bom funcionamento da área do euro. O BCE enfatizou a importância de assegurar maior automatização na vigilância e em procedimentos de sanções e de incrementar os custos políticos e reputacionais associados a descumprimento.
Os procedimentos de vigilância econômicos e orçamentários reforçados serão complementados por um referencial de regulamentação e supervisão em nível de UE. Cumprindo as recomendações do Grupo de Larosière, foi criado o Sistema Europeu de Supervisão Financeira, compreendendo 1) novas Autoridades Supervisoras Europeias (as denominadas AES, em inglês) para o setores bancário, segurador e para mercados de valores mobiliários e 2) a Diretoria Europeia para Risco Sistêmico (ESRB, em inglês) para cuidar de questões macroprudenciais.
Além disso, um referencial para o gerenciamento de crises inter-nacionais no setor bancário da UE está sendo considerado e um Mecanismo de Estabilidade Europeu (ESM, em inglês) - uma linha permanente de prestação de socorro financeiro aos Estados membros da área do euro sujeitos a rigorosas condicionalidades - deverão entrar em vigência operacional no início de 2013. A ESM disporá de uma capacidade efetiva para emprestar €500 bilhões, a ser revista regularmente.
O detalhamento concreto do ESM está sendo negociado, ainda que suas características gerais já tenham sido anunciadas pelo Conselho Europeu. Restam algumas incógnitas, em especial no que diz respeito à amplitude do envolvimento do setor privado: se o ESM deverá agir mais como ferramenta preventiva ou de socorro, e quando podem ocorrer intervenções em mercados primários de dívida. O principal desafio é como evitar que problemas de liquidez temporária se transformem em problemas de solvência e, ao mesmo tempo, minimizar o risco moral implícito em qualquer socorro antecipadamente assegurado.
Outras inovações institucionais foram propostas, entre as quais a eventual criação de eurotítulos, que não foi recebida com entusiasmo por muitos membros da UE. Mas o Parlamento Europeu, a Comissão Europeia e alguns Estados membros demonstraram algum interesse e eu acredito que o debate sobre essa questão está longe de terminado.
Estes são, sem dúvida, tempos desafiadores. A crise mostrou a necessidade de melhor cooperação internacional, melhor governança, supervisão fortalecida dos mercados e maior transparência. Isso é relevante não apenas para governos, mas também para bancos centrais e autoridades supervisoras.
Como bem salientado no relatório de De Larosière, "As autoridades monetárias em todo o mundo e suas autoridades encarregadas de regulamentação e fiscalização financeira podem e devem atuar melhor, no futuro, para reduzir as chances de que eventos como esses se repitam".
(Tradução de Sergio Blum e Sabino Ahumada)
Carlos da Silva Costa, doutor em Economia pela Universidade de Paris, é presidente do Banco de Portugal desde junho de 2010.
Este é o sexto e último de uma série de artigos feitos por renomados economistas brasileiros e estrangeiros convidados pelo Valor para discutir a crise financeira internacional e avaliar seus possíveis desdobramentos.

domingo, 2 de outubro de 2011

Relações Brasil-União Europeia

02/10/2011 - 14h07

Após cinco anos de suspensão, Dilma tenta destravar acordo Brasil-União Europeia

Renata Giraldi
Da Agência Brasil
Em Brasília



No primeiro dia de reuniões da 5ª Cúpula Brasil-União Europeia, na Bélgica, a presidente Dilma Rousseff vai reiterar a preocupação com os impactos da crise econômica internacional. Dilma vai defender a parceria estratégica com o bloco como alternativa para amenizar os prejuízos causados pela crise. Ela também deverá destacar que o Brasil está disposto a colaborar com os europeus no que for necessário. Em outra frente, Dilma vai tentar destravar um acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, cujas negociações foram suspensas em 2006.


Para a presidente, um dos mercados que deveriam ser abertos aos brasileiros na Europa é o setor de serviços. Porém, há resistências dos europeus, que temem a competição.
A presidente deverá lembrar ainda que o desenvolvimento sustentável não pode ser excluído da pauta de discussões. O assunto é o principal tema da Conferência Rio+20, que ocorrerá no Rio de Janeiro entre 28 de maio e 6 de junho de 2012. Será a maior conferência mundial sobre preservação ambiental, desenvolvimento sustentável e economia verde.
Paralelamente, Dilma tratará dos temas que interessam às negociações envolvendo Mercosul e União Europeia. Há articulações para que seja fechado, ano que vem, um acordo de livre comércio entre os dois blocos econômicos. Segundo especialistas, com o acordo, as possibilidades de negócios e de geração de empregos serão multiplicadas.
Porém, a negociação sofre resistências de alguns governos, como o da França, que teme, por exemplo, a competição com a carne produzida na América do Sul. Outra negociação envolve a indústria manufatureira. As negociações para criação do livre comércio entre os dois blocos foram interrompidas em 2006 e só foram retomadas este ano.
Nos discursos recentes que fez na Organização das Nações Unidas (ONU) e no Peru, Dilma disse que a crise não foi causada pelos emergentes, e sim, pelos países mais ricos. Ela se referiu aos Estados Unidos e aos europeus.
A presidente desembarcou hoje (2) em Bruxelas, capital da Bélgica. Além de participar da reunião de cúpula com a União Europeia, ela foi convidada abrir o 23º Europalia, o maior festival europeu de cultura que, este ano, vai homenagear o Brasil. Também está previsto um encontro com o rei Albert II, da Bélgica. De Bruxelas, a presidente segue para a Bulgária, onde vai conhecer a família do pai dela, Pedro Rousseff, que emigrou para o Brasil e nunca mais voltou.